TERÇO e CANCRO

ANTICANCRO

David Servan-Schreiber é doutor em ciências neurocognitivas e a sua tese de doutoramento foi publicada pela revista “Science”. Em 2002 foi eleito o melhor psiquiatra clínico da Pensilvânia.

Após lhe ter sido diagnosticado um cancro no cérebro, dedicou-se ao estudo aprofundado de todos os factores que levam ao aparecimento do cancro e à cura ou atenuação dos seus efeitos. Desse estudo nasceu o livro “Anticancro, Um Novo Estilo de Vida”, que foi bestseller internacional. A tradução portuguesa foi publicada em 2008. É deste livro que de seguida, transcrevemos um dos capítulos, relacionado com a reza do terço.

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O Professor Dr. Luciano Bernardi, da Universidade de Pavia em Itália, tem-se interessado pelos ritmos corporais autónomos que constituem a base da fisiologia: variações do ritmo cardíaco, tensão arterial, respiração, etc. Estudou a forma como estes ritmos flutuam de um momento para o outro, em dife­rentes períodos do dia. Sabia que um equilíbrio estável entre esses biorritmos distintos talvez fosse o indicador mais preciso de boa saúde; em alguns estudos, a medição desse equilíbrio pode prever com precisão que se viverá mais quarenta anos.

O Dr. Bernardi identificou as condições que poderiam conduzir a uma desorganização temporária destes ritmos e analisou a forma como o corpo recuperava o seu equilíbrio. Para tal, pediu aos seus pacientes que fizessem exercícios como cálculo mental ou ler em voz alta, enquanto media as micro-variações do seu ritmo cardíaco, tensão arterial, irrigação cerebral e padrões de respiração. Desse modo, pôde constatar que o mais pequeno dos exercícios mentais stressantes tinha um efeito imediato nesses ritmos. Eles reagiam adaptando-se ao esforço, por menor que fosse. Mas a grande sur­presa adveio do que se designa por condição de «controlo». Para medir as alterações fisiológicas desencadeadas pelos exer­cícios mentais, estas tinham de ser comparadas com um estado dito neutro – um estado em que os pacientes falavam em voz alta, mas sem esforço mental ou tensão. Na experiência do Dr. Bernardi, o estado neutro consistia em pedir aos sujeitos que recitassem um texto que soubessem de cor, o que não requeria uma atenção par­ticular. Como os sujeitos viviam na Lombardia, uma região italiana profundamente católica, pensou, naturalmente, em pedir-lhe que rezassem o terço.

Quando os pacientes do Dr. Bernardi começaram a recitar uma série de Aves Maria em latim, os instrumentos do laboratório registaram um fenómeno totalmente inesperado. Todos os diferen­tes ritmos biológicos medidos começaram a ressoar. Alinharam-se, um a seguir ao outro, amplificando-se mutuamente para criar um padrão suave e harmonioso. Um milagre? Não necessariamente. O Dr. Bernardi não tardou a perceber que a explicação era bem mais simples. Em Itália, a congregação reza o terço à vez, com o padre. Cada recitação ocorre numa única expiração. A inalação que se segue ocorre durante a vez do padre.  Os pacientes haviam adop­tado naturalmente esse ritmo, enquanto diziam a oração durante a experiência. Ao fazê-lo, também se haviam adaptado mecânica e subconscientemente, a uma frequência de seis respirações por minuto que é precisamente o ritmo natural de flutuações nas outras funções biológicas que o Dr. Bernardi analisava (ritmo cardíaco, ten­são arterial, irrigação sanguínea do cérebro). O resultado dessa sin­cronização foi que o ritmo de cada função ressoava com os outros, reforçando-se mutuamente, tal como quando se está sentado num baloiço o impulso dianteiro das pernas, cronometrado na perfeição com o balanço para cima, amplifica o movimento.

Tal como na prática do ioga, os pacientes aprenderam a deixar a sua voz proferir cada sílaba do mantra, de modo a sentirem os sons vibrarem nas suas gargantas. Então, continuariam a seguir a sua exalação, até sentirem necessidade de inspirar novamente para a repetição seguinte. Bernardi observou precisamente os mesmos resultados obtidos com a oração da Ave Maria. A respiração dos pacientes adoptou automaticamente um ritmo de seis ciclos respi­ratórios por minuto; uma harmonização ou coerência com os rit­mos de outras funções fisiológicas autónomas. Intrigado, Bernardi pensou se essa semelhança surpreendente entre práticas religiosas tão distantes poderia ter raízes comuns. De facto, encontrou uma fonte histórica que sugeria que o terço fora introduzido na Europa por Cruzados que o haviam aprendido com os Árabes que, por sua vez, o haviam adaptado de práticas de monges tibetanos e mestres de ioga na índia.  É evidente que a descoberta de práticas que desencadeiam a harmonização de ritmos biológicos em prol do bem-estar e da saúde remontam ao passado mais distante.

Em 2006, Julian Thayer e Esther Sternberg, investigadores da Universidade de Ohio e do National Institute of Health dos EUA, publicaram em Annals ofthe New York Academy of Sciences uma análise de todos os estudos relativos à amplitude e variações dos ritmos biológicos. Concluíram que tudo o que amplifica variações – como sucede nos estados de ressonância ou «coerência» descri­tos por Bernardi – está associado a um número de benefícios para a saúde. Em particular:

– melhor funcionamento do sistema imunitário

– redução de inflamações

– melhor regularização de níveis de açúcar no sangue.

Estes são precisamente três dos principais factores que actuam contra o desenvolvimento do cancro.

Entre o nascimento, em que a amplitude dos ritmos biológicos é mais elevada, e a proximidade da morte, quando é mais baixa, a amplitude das variações (designadas em termos técnicos como «variabilidade») diminui cerca de 3% por ano. Isso significa que o corpo perde progressivamente a sua adaptabilidade; tem cada vez mais dificuldade em manter o equilíbrio, quando confrontado com os riscos do nosso ambiente físico e emocional. O enfraque­cimento deste equilíbrio nas funções corporais está associado a vários problemas de saúde ligados ao envelhecimento: hiperten­são, insuficiência cardíaca, complicações que advêm da diabetes, enfarte, morte súbita e, é claro, cancro.  Porém, acontece que esse equilíbrio – que podemos avaliar facilmente medindo a ampli­tude das variações do ritmo cardíaco – é também uma das funções biológicas que melhor reage ao treino mental da respiração e da concentração. Foi exatamente isso que o Dr. Bernardi descobriu ao mostrar o impacto de práticas tão ancestrais quanto a de um mantra budista e o terço.

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IMACULADA CONCEIÇÃO

IMACULADA CONCEIÇÃO

PAPA CONTRA DOGMA?

O Papa Bento XVI acredita no dogma da Imaculada Conceição? É esta a pergunta que nos fica depois de lermos o livro do católico francês Jaques Duquesne “MARIA – A verdadeira história da Mãe de Jesus”.

Um capítulo do livro de Duquesne é dedicado à história do dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX no dia 8 de Dezembro de 1854. Apresentamos o resumo deste capítulo.

No dia 8 de Dezembro, festejamos a Imaculada Conceição da Virgem Maria, mãe de Jesus. Imaculada Conceição significa que Maria foi concebida sem pecado original, com que nascem todos os homens desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso.

O texto da proclamação do dogma, lido pelo Papa Pio IX diz exactamente: «declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, foi preserva­da e imune de toda a mancha da culpa original, desde o primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em aten­ção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do género humano, foi revelada por Deus e deve portanto ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis”

O debate só tinha começado verdadeiramente na época de San­to Agostinho (século IV), dado que foi ele quem inventou a expres­são «pecado original» e formulou precisamente esta doutrina. De tal modo o fez que lhe atribuem a paternidade dela.

Antes dele, os Padres da Igreja tinham-se questionado sobre a santidade de Maria. Tertuliano tinha mesmo pretendido com o seu habitual ardor que Maria tinha sido renegada por Jesus porque não tinha tido fé nele. Orígenes, sem ir tão longe, explicava ao povo que ela tivera algumas ligeiras fraquezas. Opinião que repetia muitas vezes diante de bis­pos que, ao que parece, não viam nisso motivo para o contradizer. Também é verdade que, nessa mesma altura, ele adornava a Virgem de toda a espécie de virtudes e fazia dela um modelo para as mu­lheres.

Um outro Padre, Epifânio, considerava, contrariamente a Orígenes, que nunca Maria conhecera a menor fraqueza. Mas também lutava contra os grupos que a adoravam como uma deusa. Outros, como Gregório de Nazianzo, pensavam que ela tinha sido «purifica­da» no momento da Incarnação. Enfim, S. João Crisóstomo, que não estava para demasiados rodeios, multiplicava as censuras a Maria: ela não tinha acreditado com a necessária rapidez na mensagem do Anjo Gabriel, dado que lhe tinha feito uma pergunta; em Caná ela exibira-se mas recebera uma lição “bem merecida”.

Santo Agostinho sublinha que Jesus não sofreu o pecado original porque não foi fruto de um acto sexual. Mas Maria sim. Santo Agostinho, portanto não defende a imaculada Conceição.

No Concílio de Éfeso (431) defende-se que Deus, tendo criado a primeira Eva sem opróbrio, fez nascer a segunda sem mácula. A partir de então começa a florescer no Oriente a ideia da Imaculada Conceição.

No Ocidente, a história é outra. Há quem a admita mas há tam­bém quem se oponha. E não são uns quaisquer: chamam-se S. Ber­nardo e S. Tomás de Aquino. A sua tese é simples: o pecado original atingiu toda a humanidade sem qualquer excepção, senão Cristo não se poderia apelidar «salvador de todos os homens». A única graça de Maria foi a de ter sido purificada, não na altura da sua con­cepção mas apenas no momento do seu nascimento. É, no fim de contas, o mesmo que Santo Agostinho dissera.

Aparece, então, Duns Escoto. Um franciscano, por vezes apelidado de «doutor subtil», cuja obra é conside­rável. E também a sua influência.

Nesta época (séculos XIII e XIV) algumas ordens religiosas substi­tuíam-se, sobretudo nas cidades, aos padres das paróquias, para pregar a boa nova. E em questão de técnicas de enquadramento e animação das massas, estavam muito avançados em relação ao seu tempo.

Nas primeiras filas estavam os franciscanos e os dominicanos. Mas, unidos para difundir a devoção mariana, estavam em desacor­do sobre a Imaculada Conceição. Os dominicanos, com Tomás de Aquino, não só não acreditavam nela, mas também não admitiam o seu sentido. Pelo contrário, os franciscanos propagavam esta crença. Duns Escoto era o seu «campeão» em teologia mariana. Levou a cabo um considerável trabalho teológico. E foi ele quem «inflamou a França por Maria Imaculada».

Convém dizer que os tempos eram propícios: os grandes deba­tes sobre a redenção, a concepção virginal, a Trindade, a natureza humana e divina de Jesus tinham terminado, mesmo se aqui e além continuassem a surgir heresias. Os teólogos que povoavam as uni­versidades e os colégios (todos religiosos) começaram a explorar outros domínios. Aquilo que chamamos «mariologia» era um deles. Recomeçou-se a discutir muito (alguns séculos depois de Éfeso) os papéis e as qualidades respectivas de Jesus e da sua mãe. Sustenta­va-se que, depois da sua Ressurreição, Cristo tinha «sem qualquer dúvida» aparecido prioritariamente a Maria, facto de que não existe qualquer menção no Novo Testamento. Thomas A. Kempis, prová­vel autor da Imitação de Jesus Cristo — um livro que iria conhecer uma enorme difusão, ainda por cima com a ajuda da invenção da arte de imprimir — dizia até que «Maria era a sua única esperança», «a depositária da sabedoria de todos os livros do Antigo Testamento e dos Evangelhos». O francês Gerson, no entanto, prudente, qualifi­cava-a de «deusa do amor, não do amor impuro mas sim do amor divino».

Nestas atitudes «marianolátricas», a afirmação da Imaculada Con­ceição regressava, obviamente, com força. S. Bernardo e S. Tomás de Aquino tinham outrora repetido em todos os tons, como se viu, que se Maria nascesse sem pecado original, isso diminuiria a digni­dade de Cristo «como salvador universal de todos». Gerson replicava com uma subtileza: Jesus estava isento do pecado original por «direi­to próprio» e Maria «por privilégio».

Esta corrida aos louvores atingiu cúmulos.

Foi então que Duns Escoto interveio. Primeiramente não pondo em dúvida que Deus preservara Maria do pecado original. Depois, interrogando-se: quando é que Ele levou isso a cabo?  No momento da sua concepção pelos seus pais? Um instante depois? Ou passado algum tempo?… Resposta: só Deus sabe. Mas nós, nós devemos atri­buir a Maria «o maior grau de excelência possível». Resultado: es­creveu-se e pregou-se, depois dele, que Deus, no momento da criação, tinha posto de lado uma certa quantidade de «matéria pri­mordial» — a que existia antes do pecado original, que não fora portanto degradada por este — para que o corpo de Maria pudesse dela beneficiar. E dado que Maria não estava marcada pelo pecado original, ela não podia sofrer os seus efeitos, por exemplo a fadiga!

Era esquecer que Jesus — que não estava tocado pelo pecado origi­nal — tinha conhecido a fadiga, a angústia e a morte.

 Num tempo em que os teólogos «marianolatras» escreviam que o ventre de Maria, grávido, tinha inchado mais depressa que o das outra mulheres e que ela tinha alimentado melhor o feto que as outras, estas contradições a propósito do pecado original foram pouco notadas. Estes excessos não foram de nenhum modo conde­nados. E depois de Duns Escoto até à proclamação do dogma em 1854, a crença na Imaculada Conceição espalhou-se. Os religiosos levavam a cabo milhares de campanhas nesse sentido.

A iniciativa de Pio IX foi pois acolhida com satisfação, com entusiasmo até.

 

O debate sobre o pecado original continua, mas muitas vezes, numa prudente obscuridade. Convém relembrar a tese de Agostinho: Adão, ao pecar, «como que viciou a humanidade na sua raiz […]. Assim, qualquer homem [saído] dele e da sua esposa igualmente condenada depois de ter sido o instru­mento do seu pecado, que nasceria pela via dessa concupiscência carnal […] contrairia o pecado original. Pecado pelo qual, através dos erros e de dores di­versas, ele seria arrastado para o derradeiro suplício que não deve ter fim». Agostinho, que aliás era um cantor do amor de Deus e do amor por Deus, foi ao ponto de escrever que «Deus ao criar o homem, não ignorava, desde logo, que [este] pecaria e que a partir daí votado à morte, geraria filhos destinados a morrer e [que] esses mortais levariam tão longe a sua ferocidade criminosa que os animais privados de razão, de vontade […] viveriam entre eles na sua espé­cie com mais serenidade e paz que os homens cuja raça era nascida de um só»

Agostinho teve, quanto a esta concepção do pecado original, numerosos discípulos. Influenciou a teologia e a prática cristã até aos nossos dias. Sobretudo o Concílio de Trento (1546) estabeleceu o dogma do pecado original sem grande debate. O Cânon 2 do decreto conciliar afirma que o pecado original atingiu todos os homens, o cânon 3 que ele se transmitiu «por propagação e não por imitação», ou de outra maneira, que ele é hereditário, e o cânon 4 pre­cisa que os recém-nascidos trazem com eles esse pecado (e estão pois conde­nados ao Inferno) enquanto não forem baptizados…

O Catecismo da Igreja Católica, publicado por João Paulo II, continua no essencial dentro da mesma linha. Mas em 1985, o cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), reconhecia que «numa hipótese evolucionista do mundo, não há evidentemente lugar para qualquer pecado original». Ora, onze anos mais tarde, a 24 de Outubro de 1996, o Papa João Paulo II, numa mensagem à Academia Pontifícia das Ciências, admitia praticamente (e contrariamente ao seu  predecessor Pio XII na encíclica «Humani generis»), o que o cardeal Ratzinger chamava «hipótese evolucionista». Para, justamente, di­zer que se não tratava de uma simples hipótese: «Novos conhecimentos, escre­via ele, «conduzem a reconhecer na teoria da evolução mais do que uma hipótese. Efectivamente, é notável que esta teoria se tenha vindo progressiva­mente a impor ao espírito dos investigadores, em consequência de uma série de descobertas feitas em diversos ramos do saber. A convergência, em nada procurada ou provocada, dos resultados de trabalhos levados a cabo indepen­dentemente uns dos outros, constitui por si própria um significativo argumento a favor desta teoria»

Se aproximarmos o texto do Papa ao do seu teólogo preferido, dever-se-á concluir que eles deixam o dogma do pecado original em maus lençóis.

A teoria do pecado original, “inventada” por Santo Agostinho, tinha como pressuposto que o primeiro homem e a primeira mulher foram Adão e Eva, criados, com expressa intervenção de Deus. Como essa criação está agora posta de parte pela teoria da evolução, o pecado original também deixa de ter sentido. De facto em que altura da evolução se situaria o tal pecado, no homo sapiens, no Cro-Magnon, no Neanderthal?

Ora, se não há pecado original, o dogma de que Maria foi concebida sem esse pecado, deixa de fazer sentido.

Bom, o que verdadeiramente se conclui da teoria de Ratzinger (Papa Bento XVI) é que não só Maria mas todos os homens foram concebidos sem pecado original.

CAIM – José Saramago

Comprei a 5ª Edição do livro “Caim” no dia 2 de Janeiro de 2010, em Viseu por 15,21 euros.

Vamos procurar dar aqui uma ideia do conteúdo do livro. O romance compõe-se de 13 capítulos, identificados apenas por algarismo de 1 a 13.

1

Adão e Eva. Pareciam perfeitos mas não tinham língua e Deus teve de lhes colocar uma língua para eles começarem a falar. Deus também se apercebeu que não tinham umbigo e um dia enquanto dormiam, nus, fez-lhes um na barriga. Foi esta a última vez que o senhor achou que a sua obra estava bem. 50 anos e um dia depois deu-se a catástrofe: desobediência às ordens de Deus e consequente expulsão do paraíso. A mulher desculpou-se com a cobra mas Deus chamou-lhe mentirosa, porque no paraíso não há cobras. Eva disse que foi em sonho que a cobra lhe falou, mas Deus desmentiu-a novamente dizendo que as cobras não falam.

“Disse então o senhor, Tendo conhecido o bem e o mal, o homem tornou-se semelhante a um deus, agora só me faltaria que fosses colher também do fruto da árvore da vida para dele comeres e viveres para sempre, não faltaria mais, dois deuses num universo, por isso te expulso a ti e a tua mulher deste jardim do éden, a cuja porta colocarei de guarda um querubim armado com uma espada de fogo, o qual não deixará entrar ninguém.”

2

A primeira morada de Adão e Eva foi uma cavidade ao norte do jardim do éden. Deus tinha-lhes dado umas peles para se cobrirem. Não se sabe de que animais seriam nem quem os teria matado e esfolado.

Eva, depois de ter uma conversa com o medroso Adão e contra a vontade deste, foi falar com o querubim para a deixar entrar no éden para colher algumas frutas que lhe permitisse aguentar a fome por mais alguns dias. O querubim negou e Eva disse que se a matasse com a espada de fogo era igual para ela, morrer de fome ou da espada. O querubim acabou por ir ao éden buscar-lhe fruta mas pediu-lhe segredo e que voltasse com o marido no dia seguinte. Adão e Eva lavaram-se num riacho mas como não tinham sabão não ficaram grande coisa… Foram ter com o Querubim que lhes disse que eles não eram os únicos na terra e ensinou-lhes um caminho onde deveriam esperar pelas caravanas que passam a caminho dos mercados. Com a espada de fogo acendeu-lhes uma fogueira para serem vistos e procurados pela caravana. Eva agradeceu ao querubim com um abraço e Adão, mais tarde, implicou com ela por lhe parecerem estranhas todas aquelas atenções do querubim: “deste-lhe alguma coisa em troca”. “É um querubim, um anjo…, respondeu Eva.” “Crê-se que foi neste dia que começou a guerra dos sexos”.

3

Foram aceites na caravana. “Tirando o facto de serem filhos do senhor, obra directamente saída das suas divinas mãos” eram iguais aos outros homens. Quando a caravana chegou à povoação, Adão e Eva aprenderam a trabalhar e Adão chegou a ser considerado pelos vizinhos um bom agricultor. Comprou uma terra e levantou uma casa de toscos adobes, onde nasceram os três filhos: Caim, Abel e Set. Abel preferia as ovelhas e os cordeiros, Caim gostava das enxadas, das forquilhas e das gadanhas. Desde a tenra idade, Caim e Abel foram os melhores amigos, “a um ponto tal que nem irmãos pareciam, aonde ia um, o outro ia também, e tudo faziam de comum acordo.” “Até que um dia o futuro entendeu que já era hora de se apresentar. Abel tinha o seu gado, caim o seu agro, e, como mandava a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias do seu trabalho”. “Sucedeu então algo até hoje inexplicado.” Deus aceitava a oferta de Abel, mas não aceitava a de Caim. Abel, em vez de o consolar, escarneceu de Caim, que teve de engolir a afronta e voltar ao trabalho. A cena foi-se repetindo até que Caim , completamente desesperado, acabou por matar o irmão. Foi nesse exacto momento que Deus, tanto tempo sem dar notícias, apareceu com coroa tripla na cabeça, o ceptro na mão direita e coberto da cabeça aos pés com um balandrau de rico tecido. Interpelou Caim pela morte do irmão e Caim culpa Deus pela morte do irmão, não só por ter feito o homem com liberdade mas porque ao não aceitar as suas ofertas provocou aquela morte. Deus, admitindo a sua porção de culpa, acaba por fazer um acordo com Caim: dá-lhe o castigo de andar errante e perdido no mundo e põe-lhe um sinal na testa para que ninguém lhe faça mal. E Caim promete não fazer mal a ninguém.

4

Na sua caminhada, Caim encontrou um velho com duas ovelhas atadas por um baraço que o guiou até à terra de Nod. Na cidade, que ainda não tinha nome, arranja emprego a pisar barro para uma construção do palácio cuja dona, Lilith, é quem manda na cidade. Lilith acaba por contratá-lo para seu assistente ou porteiro ou criado para todo o serviço.

5

Caim torna-se amante de Lilith, que quase não o deixa sair da sua cama, tal o desjo carnal que tem por ele. O marido, Noah, não quer aceitar este romance e jura que mata os dois, mas Lilith mete-o na ordem. Lilith manda um escravo acompanhar Caim nos seus passeios, mas o escravo, combinado com Noah e mancomunado com três capangas, tenta matá-lo, mas a espada que lhe apontam transforma-se em cobra e os agressores fogem pedindo perdão. Lilith, posta ao corrente, chama o marido e culpa-o do atentado e ordena-lhe que mate o escravo. Fala com Caim na hipótese de matar o marido e casar com ele. Mas Caim diz que para mortes já bastou a do irmão e que não conte com ele para matar o marido. Entretanto Lilith engravida e Caim tem de continuar o seu caminho errante. Pede a Lilith que lhe dê um burro para continuar o seu caminho. Esta não consegue demovê-lo e dá-lhe o melhor burro da sua estrebaria, com alforges cheios de mantimentos para vários dias. Antes de prosseguir o seu caminho ainda assiste de um balcão do palácio, juntamente com Lilith e Noah e perante toda a população da cidade ao enforcamento do escravo e seus comparsas no atentado.

6

Na sua errância, Caim encontra um campo no sopé duma colina e ali pára e faz o seu almoço, descansando ele e o jumento. Já estava quase a dormir, quando avista um adulto e um rapaz que sobem o monte, transportando lenha e fogo. Era Abraão com o seu filho Isaac. Chegando ao cimo do monte, Abraão, preparou a lenha, atou o filho e colocou-o sobre a lenha. Empunhou a faca para lhe cortar a garganta, quando surgiu atrás dele Caim e lhe segurou o braço, impedindo a morte de Isaac. Abraão debateu-se com Caim, mas este ameaçou-o de que o matava a ele se continuasse no propósito de sacrificar o filho. Foi então que chegou um anjo que começou a declamar como um actor: “Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor”. Caim disse para o anjo que chegou tarde e que se não fosse ele já o menino estava morto. O anjo desculpou-se pelo atraso porque tinha tido um problema com uma asa. Depois de elogiar Abraão por ter mostrado a sua fidelidade a Deus, o anjo afasta-se, coxeando da asa direita. Isaac pergunta ao Pai que mal lhe tinha feito para o querer matar e este diz que era uma prova que Deus lhe tinha pedido. Isaac não compreende que Deus é este que exige estas provas.

Caim segue o seu caminho, avista uma construção em forma de cone e dirige-se para lá. À medida que se aproxima vai ouvindo rumores de vozes que vão crescendo até se transformarem em algazarra. Parecem malucos porque falavam e não conseguiam entender-se. A sorte dele foi encontrar um que falava hebraico, pois havia gente a falar, “sem dicionário nem intérprete, em inglês, em alemão, em francês, em espanhol, em italiano, em eusquera, alguns em latim e grego, e mesmo, quem o imaginaria, em português.” Lá conseguiu então perceber que a intenção dos construtores da torre era boa: chegar ao céu, que é desejo de todo o homem justo, mas Deus veio vê-la e não gostou, ficou cheio de inveja, e como “não suporta ver uma pessoa feliz”, acabou por deitá-la abaixo com um vento que não deixou pedra sobre pedra.

“A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.”

7

Prosseguindo o seu caminho, Caim encontra novamente Abraão, e, enquanto falava com ele em sua casa, aparecem três personagens, sendo um deles o próprio Deus. Este avisa Abraão de que vai destruir pelo fogo as cidades de Sodoma e Gomorra e que avise os familiares que ali tem para saírem a tempo. Então Abraão intercede pela cidade e Deus acaba por condescender e aceita não proceder à destruição das cidades se ali houver pelo menos dez justos.

Caim acompanha Abraão à cidade para avisar o sobrinho Lot e família para fugirem antes da destruição. Quando estes saíram, Deus destruiu até aos alicerces as cidades, assim como toda a região com todos os seus habitantes e vegetação. A mulher de Lot, por uma curiosidade natural de ver a destruição, acabou por ser transformada em estátua. Caim chama a atenção para Abraão de que foram chacinados muitos inocentes, pois ali havia muitas crianças. “Meu deus, murmurou Abraão e a sua voz foi como gemido, Sim, será o teu deus, mas não foi o delas”.

8

Na sua senda pelo mundo, veio Caim a dar ao deserto de Sinai, onde se viu no meio de uma multidão de pessoas acampadas no sopé do monte. O nome de Moisés andava de boca em boca, uns com veneração e a maioria com certa impaciência. Viu como os impacientes obrigaram Aarão, irmão de Moisés, a fazer uma estátua em ouro de um bezerro e o adoraram como deus. Chegou Moisés, deitou a mão ao bezerro e reduziu-o a pó. Depois disse que eram ordens de Deus que os levitas que foram fiéis ao Senhor, passassem pelo acampamento e, indo de porta em porta, matassem o irmão, o vizinho e o amigo. E foi assim que morreram cerca de três mil homens. Caim mal podia acreditar no que via. Ele foi castigado só por matar o irmão e agora queria ver que castigo haveria para aquela mortandade provocada só porque Deus “tinha ficado irritado com a invenção de um suposto rival em figura de bezerro”.

Ficou ainda mais tempo Caim no meio daquela multidão e assistiu ao desfecho da guerra com os medianitas, que venceram os israelitas. Com esta pedra no sapato, Deus ordenou a Moisés que se vingassem dos medianitas. Foi então organizado um exército que atacou, venceu e matou todo o exército medianita e de toda a região, com os seus cinco reis. As mulheres e as crianças levaram-nas como prisioneiras, mas Moisés ficou irritado quando as viu e ordenou que matassem todas as crianças e as mulheres, à excepção das solteiras que podiam ficar para seu uso e abuso. Nada disto já surpreendia Caim nem o surpreendeu a repartição dos despojos, segundo o que foi ordenado por Deus, que levou a maior parte e ficou rico. Caim conclui que este Deus, com os lucros que tem da guerra, qualquer dia passará a chamar-se Deus dos exércitos. Mas também sentia que este Deus começava a sentir vergonha das suas atrocidades e já se escondia em colunas de fumo, como se quisesse que não o vissem.

9

Ainda na companhia dos Israelitas comandados por Josué, Caim assistiu à tomada de Jericó, feita dando voltas à cidade, com barulhos, gritos e tocar de chofares que provocaram a queda das muralhas e deram ocasião para Josué entrar com os seus e destruir tudo, matando homens e mulheres, novos e velhos, bois, ovelhas e jumentos.

Dali marchou sobre a cidade de Ai, que conquistou e destruiu matando todos os sus 12 mil habitantes. Caim, vendo tanta mortandade resolveu ir-se embora e separar-se daqueles bárbaros. Perdeu assim a conquista de outras várias cidades por Josué sempre com o massacre de todos os habitantes e não assistiu ao “maior prodígio de todos os tempos, aquele em que o senhor mandou parar o sol para que Josué pudesse vencer, ainda com luz do dia, a batalha contra os cinco reis amorreus”. Mas esta história não foi bem como é contada. De facto, Deus disse a Josué que não podia mandar parar o Sol, porque ele já está parado e o que anda é a terra. E esta não podia ser parada porque se parasse, tudo quando nela existe seria lançado pelo universo fora. Então Deus combinou com Josué que este o invocaria diante do povo e lhe pediria que parasse o Sol e Ele faria os possíveis, afastaria as nuvens de forma a parecer que continuava a haver luz, mas Josué teria de andar mais rápido para fazer o serviço dentro das horas normais de sol. E assim aconteceu, nunca tendo havido qualquer paragem de sol ou da terra de forma a ser maior ou menor o dia.

10

Caim foi a ter novamente à terra da Lilith, que já tinha tido o filho de nome Enoch, que deu o nome à cidade.

Deteve-se algum tempo com ela, contou-lhe as atrocidades a que tinha assistido até então.

Lilith, que entretanto enviuvara, queria que Caim ficasse e casasse com ela, mas ele continuou o seu caminho.

11

Entra numa cidade onde nunca tinha estado. Encontrou dois homens a quem pediu informações sobre a terra e com arranjar emprego. Eles disseram-lhe que estava na terra de Us e que o homem mais rico da terra, chamado Job, lhe poderia arranjar emprego. Ele agradeceu e eles acabaram por se identificar como dois anjos que já o conheciam e que lhes agradeciam a forma como foi bom para Abraão e para Lot. Caim perguntou-lhes qual era o seu encargo ali, uma vez que em Sodoma o seu trabalho foi o de destruir a cidade. Os anjos, depois de muita discussão e pedidos de segredo, acabam por contar que Deus fez uma aposta com o diabo, em que se Job ficasse na miséria, não renegaria Deus. Caim disse que não lhe parecia muito limpo da parte do Senhor que Job, um homem bom, honesto e religioso, fosse alvo de uma aposta entre Deus e o Diabo, em que Job, sem ter cometido crime nenhum fosse castigado com a perda de todos os seus bens. Fazia-lhe lembrar o sucedido com Abraão, posto à prova com a obrigação de matar o filho. “Se o senhor não se fia nas pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se nele.” Caim assiste a todas as desgraças que caem sobre Job, o desaparecimento de todos os seus haveres, a morte de todos os seus dez filhos. Job manteve a sua fidelidade e Deus e então impõe-lhe mais uma prova, uma doença que lhe deixou a corpo todo em chaga. Mesmo assim Job manteve-se fiel. Caim é que já não quis assistir a mais nada e desandou. Veio depois a ter a notícia de que Job recuperou tudo e muito mais mas Caim pergunta-se que raio de prova é esta que brinca com os filhos e a mulher fazendo-os desaparecer como coisas sem significado para depois os substituir por outros, mas aqueles já não voltarão.

E o Diabo, que fez todas aquelas atrocidades, não é castigado?

12

Entrou numa verdejante montanha e à entrada dum vale descortinou uma construção em madeira que se assemelhava a um barco, mas mais parecia uma arca. Era a construção da arca que Noé e sua família faziam por encargo de Deus. Este apareceu e sobre a construção da arca, explicou a Caim “como se repetisse um discurso já antes feito e decorado, A terra está completamente corrompida e cheia de violência, só encontro nela corrupção, pois todos os seus habitantes seguiram caminhos errados, a maldade dos homens é grande….vou exterminá-los assim como à terra, a ti, Noé, escolhi-te para iniciares, e assim mandei que construísses uma arca de madeira…”. Caim então disse que com aquelas dimensões e aquela carga, a arca não iria flutuar e que era uma ratoeira onde todos morreriam. Deus replicou que pelos seus cálculos iria flutuar. Caim disse que, segundo o princípio de Arquimedes, os barcos flutuam porque todo o corpo submergido num fluido experimenta um impulso vertical e para cima igual ao peso do volume do fluido desalojado, portanto a arca só flutuaria se fosse feita ao pé do mar e fosse empurrada para o mar depois de construída. Noé pediu licença para falar e disse que Caim estava a ter razão. Deus deu umas voltas ao assunto e disse que quando a arca estivesse concluída, mandaria uns anjos transportadores para a levar para o mar directamente e o caso ficou arrumado. Deus enviou uns anjos, carpinteiros, para ajudar a conclusão da arca. Caim tem uma conversa com eles sobre a vantagem de destruir este humanidade sem a certeza de que a que lhe suceder não cairá nos mesmos defeitos desta.

13

A arca está pronta e com todos os animais e pessoas, entre elas Caim, lá dentro. Os anjos içam-na no ar e transportam-na para o mar, onde é colocada e começa a flutuar. O trabalho dentro da arca, para limpar toda a porcaria que faziam os animais era insuportável.

Quando as águas baixam, a arca tocou a terra, abre-se a porta da arca e começam a sair os animais.

“Quando as tartarugas, que tinham sido as últimas, se afastavam, lentas e compenetradas como lhes está na natureza, deus chamou, Noé, noé, por que não sais. Vindo do escuro interior da arca, caim apareceu no limiar da grande porta, Onde estão noé e os seus, perguntou o senhor, Por aí, mortos, respondeu caim, Mortos, como, mortos, porquê, Menos noé, que se afogou por sua livre vontade, aos outros matei-os eu, Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face, Então a nova humanidade que eu tinha anunciado, Houve uma, não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de sodoma. Houve um grande silêncio. Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devo­rado o espírito. A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda. A história acabou, não haverá nada mais que contar”.

JESUS – O GALILEU ARMADO

José Montserrat Torrents é doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e é considerado um erudito de prestígio internacional no campo do cristianismo antigo.
Este livro foi escrito em Castelhano em 2007 e a tradução portuguesa é de Julho de 2008. Em Abril de 2009 custou-me 17,60 euros.
A conclusão a que chega o autor é muito controversa, mas vale a pena ler o livro, que não é grande (197 páginas) e tem considerações e propõe critérios de investigação histórica da vida de Jesus que não podem ser desprezados. Assim, vamos ver se conseguimos fazer um resumo de todo o livro, que é composto de um Prólogo, 12 capítulos e um Epílogo.
Prólogo
Alexandre, César, Adriano…
Mas nunca Alexandre histórico, César histórico, Adriano histórico: estas expressões não se usam.
Então, porquê «Jesus histórico»?
A expressão «Jesus histórico» não foi criada pela ciência da história, mas pela teologia.
O Jesus histórico não se contrapõe ao Jesus não histórico, mas ao Jesus da fé.
Nem «Jesus histórico» nem «Jesus da fé»: Jesus, o Galileu, visto na perspectiva dos grandes iniciadores das religiões e dos movimentos espirituais da humanidade: Buda, Pitágoras, Platão, Maomé… Uma figura de Jesus estudada com os mesmos procedimentos históricos com os quais se estuda Alexandre, César, Akhenaton… O Jesus da ciência histórica.
1 – Rotas de acesso
Métodos e procedimentos desta obra
O ponto de partida é constituído pelos factos narrados por documentos históricos universalmente conhecidos: vida e morte de João Baptista, existência de Jesus e do seu irmão Tiago, execução de Jesus por Pôncio Pilatos, relato das cartas de Paulo, morte de Tiago no ano 62. Há uma segunda série de factos que se extraem da literatura lendária por meio de critérios de historicidade.
Valor histórico dos Evangelhos
O historiador laico reconhece que a narração dos Evangelhos contém dados históricos, mas que devem ser esclarecidos caso a caso. Os historiadores confessionais reconhecem que a narração evangélica contém lendas, a examinar caso a caso. Para o historiador laico, uma passagem evangélica é lendária se não se demonstra o contrário; para os historiadores confessionais, uma passagem é histórica se não se demonstra o contrário.
O autor deste ensaio é laico e escreve para laicos. Não tem a menor intenção de interferir com o universo dos crentes, nem é movido por qualquer animosidade relativamente às comunidades cristãs.
2 – Os documentos
História, mito, lenda
As biografias dos fundadores das grandes religiões e dos grandes movimentos espirituais contêm todas narrações maravilhosas por este motivo são consideradas pelos historiadores fundamentalmente como lendas.
BUDA
O Cânone Pali é a fonte biográfica mais antiga sobre Buda. Os especialistas consideram-no lendário e religiosamente orientado, mas ao mesmo tempo reconhecem que pode transmitir dados históricos aos quais se deve dar atenção. Ao historiador crítico compete discerni-los.
MAOMÉ
Os dados biográficos de Maomé foram transmitidos oralmente depois da morte do Profeta “pelos que memorizam” ou “tradicionais”. Cada relato constituía um hadiz e o conjunto dos hadizes deu lugar à assuna ou tradição. Em finais do século IX da era cristã a assuna começou a ser compilada, originando seis livros canónicos redigidos entre 870 e 915.
As primeiras biografias escreveram-se mais de cem anos depois da morte de Maomé e as primeiras compilações da hadizes fize¬ram-se duzentos anos depois da morte do Profeta.
Assim, as «vidas de Maomé» são escritos basicamente lendários que contêm muitas informações às quais, historicamente, se deve pres¬tar atenção, a esclarecer caso a caso.
O historiador atribuirá às «vidas» de Jesus o mesmo tratamento que às «vidas» de Buda e de Maomé, sem privilégio algum. Isto é, considerará que as «vidas» de Jesus são escritos que per¬tencem ao género literário da lenda, ainda que contenham dados histó¬ricos válidos, como muitas outras lendas.
Visionários, fraudulentos e crédulos
Os historiadores e os antropólogos falam da «formação de crenças» e da «criação de narrações» atribuídas não a uma pessoa mas sim a grupos, inclusive sucessivos, no seio dos quais terá surgido a lenda. Até se descreve o que se denominou «horizonte de expectativas»: os receptores esperam determinadas mensagens e aco¬lhem-nas sem reservas. No âmbito das religiões, muitas propostas res¬pondem a fenómenos visionários do emissor, transmitidos aos recepto¬res e aceites por estes. Nestes casos não se pode falar de falsários nem de dolo. Um exemplo claro é a afirmação de Paulo de que viu Jesus ressuscitado. Não se pode descartar em absoluto que Paulo tivesse tido uma visão do ressuscitado; estas coisas sucedem. Então, Paulo não faz mais do que comunicar a sua experiência e os seus destinatários, con¬fiando na sua sinceridade, prestam-lhe fé.
Creio que os Evange¬lhos e os Actos dos Apóstolos são composições maioritariamente literá¬rias e, portanto, polémicas.
Fontes criticamente históricas
As fontes indiscutivelmente históricas que se referem a Jesus são as cartas de Paulo, as obras de Flávio Josefo e uma breve passagem dos Anais de Tácito. Cotejados com estas fontes, os textos lendários, Evan¬gelhos e Actos dos Apóstolos, permitem extrair bastantes dados que completam as lacunas das fontes históricas.
Reunindo os dados de Paulo, de Tácito e de Flávio Josefo, podemos estabelecer este perfil biográfico: Jesus era um judeu da época do imperador Tibério; tinha um irmão chamado Tiago; foi crucificado pelo prefeito Pôncio Pilatos; foi chamado o Cristo.
O resto tem que ser extraído dos escritos lendários por meio de procedimentos probabilísticos.
Critérios de historicidade
Limitar-me-ei a examinar os dois critérios realmente essenciais e rigorosos.
O primeiro é o da dificuldade, ou da contradição, e centra-se em acções ou ditos de Jesus que tenham desconcertado ou criado dificuldades à Igreja primitiva. O essencial deste critério é que dificilmente a Igreja primitiva se teria incomodado a criar um material unicamente susceptível de a deixar numa posição difícil ou debilitada nas disputas com os seus oponentes.
Exemplos: o baptismo de Jesus por João. A comunidade primitiva não o pôde ter inventado, uma vez que apresentava a grande dificuldade de colocar Jesus abaixo de João e o descrevia como recebendo um baptismo como perdão dos pecados. Por conseguinte, a relação de Jesus com João passa a ter uma alta qualificação de realidade histórica.
Outro exemplo: a presença de armas no Monte das Oliveiras. Este dado estava em contradição com o carácter pacífico da pregação de Jesus e comprometia os cristãos perante os seus ouvintes pagãos. Portanto, não é um dado inventado.
O segundo critério é o da atestação múltipla. Trata-se de factos ou ditos testemunhados em mais do que uma fonte literária independente. Este critério é válido somente se as fontes são indiscutivelmente independentes. Há que considerar que as atestações dos Evangelhos sinópticos e João não remetem directamente para o facto, mas sim para a tradição anterior. Assim, por exemplo, estes historiadores excedem-se ao aplicar este critério à chamada dos doze apóstolos por Jesus, aduzindo que vem testemunhada nos três sinópticos e indirectamente em João. Estas quatro fontes remetem para uma fonte anterior única, à qual não se pode aplicar o critério de atestação múltipla. Deste modo, a chamada dos apóstolos não é um facto histórico e deve explicar-se por outras vias, sendo a mais provável a que remete para uma construção teológica sobre o tema das doze tribos de Israel.
Em contrapartida, há atestação múltipla de Tiago, o irmão de Jesus: testemunham-no três fontes independentes: os sinópticos, Paulo e Flávio Josefo.
O chamado «critério de coerência» não constitui um procedimento especial, mas sim o simples uso das operações lógicas da dedução e da implicação para ampliar o acervo das constatações prováveis. Exemplo: atribuir a Jesus consciência de expectativa escatológica é coerente com a mentalidade e o imaginário da sociedade na qual vivia. E de modo negativo: atribuir às autoridades judias de Jerusalém o conluio com o prefeito Pôncio Pilatos não é coerente com as informações oferecidas por Flávio Josefo e Filo acerca deste governador.
A extracção de dados históricos a partir dos escritos lendários por meio dos critérios de historicidade será sempre insegura e ambígua e nunca conduzirá à certeza histórica.
3 – A glória dos Macabeus
No ano 168 a.C., Antíoco IV, o sucessor de Alexandre Magno na Síria, propôs-se liquidar de uma vez por todas a resistência dos judeus à sua política de helenização.
Antíoco suprimiu os sacrifícios, destruiu os livros sagrados, obrigou os recalcitrantes a comer carne de porco. A perseguição desenfreada de Antíoco ocasionou muitas vítimas.
Três dos filhos de Matatias, Judas, de sobrenome Macabeu, Jonatas e Simão, também eles sacerdotes, organizaram militarmente e dirigiram a revolta entre os anos 166 e 134 a.C. A vitória sobre Lísias (163 a.C.) representou a restituição da independência. Simão uniu na sua pessoa, com duvidosa legalidade, os títulos de Sumo-sacerdote e de governante «até que surgisse um verdadeiro profeta», como diz o Livro dos Macabeus (14, 41). Através de diversas vicissitudes, a casa dos Asmoneus manteve a independência da Judeia até ao ano 63 a.C., quando Pompeio uniu o território à república de Roma.
Quando Israel sucumbiu ao poder de Roma, e em particular quando a Judeia começou a ser governada directamente por funcionários romanos, exacerbaram-se os sentimentos macabeus da população subjugada.
A glória dos Macabeus continuou a alimentar o imaginário popular dos judeus contemporâneos de Jesus. A esperança de uma mudança configurava-se como um regresso dos reis sacerdotes, que expulsariam os romanos e fariam emergir o reino de Deus, presente, mas oculto. A luta armada não era uma excrescência marginal na mentalidade dos judeus oprimidos por Roma: era um artigo da fé num Deus único que tinha eleito Israel como um povo por si destinado a dominar o mundo.
4 – Um galileu chamado Jesus
Jesus era um judeu de Galileia, filho de Maria e José.
Não há registos históricos acerca de Maria. A primeira tradição apresenta-a como uma mulher forte; a segunda tradição converte-a em profetisa.
Não se sabe qual foi o lugar de nascimento e residência de Jesus. Nazaré não existia na época. O nome de nazarenos ou nazoraïos vem, provavelmente, do facto de Jesus ser um nazir, isto é, um devoto que tinha feito um voto religioso ou político-religioso.
5 – Os irmãos de Jesus e Madalena
Jesus tinha quatro irmãos e algumas irmãs, uma delas, quem sabe, chamada Salomé. Os seus irmãos Tiago, Simão e, provavelmente, Judas foram personagens importantes na primeira comunidade de Jerusalém. Tiago e Judas foram objecto de veneração especial a partir da quarta geração cristã.
Não há dados históricos acerca de Maria Madalena. Da lenda evangélica pode-se extrair que foi a discípula predilecta de Jesus, que o tinha acompanhado nas suas deambulações pela Galileia. Há uma ténue probabilidade de que fosse algo mais, talvez a sua prometida. As menções dos textos gnósticos carecem de valor histórico.
6 – João Batista
A historicidade de João Baptista está avalizada pelo testemunho indiscutível de Flávio Josefo. João praticava um baptismo para o perdão dos pecados e pregava o advento do reino de Deus. Em contexto apocalíptico, esta doutrina revestia-se de potencialidades políticas e foi por esta razão que João foi executado por Herodes. Jesus fez-se discípulo de João e foi-o até à sua própria morte. A única diferença entre João e Jesus era o postulado da luta armada, não apoiada por João e assumida por Jesus e pelos seus. Jesus, e provavelmente o seu irmão Tiago, limitaram-se a expandir o ensinamento de João Baptista. A história do movimento político-religioso na Galileia, nesta época, simplifica-se: João, Jesus e Tiago estão na mesma linha doutrinal.
7 – A luta armada
O direito penal romano
Jesus foi condenado segundo o direito penal romano.
Segundo o Cadex Justiniani que nos permite conhecer o tratamento de delitos e penas durante o Império, e pena de morte em forma agravada (crucificação, fogueira, suplício em espectáculos) era aplicada às seguintes situações:
– Em geral e absolutamente: Incêndio na cidade provocando motim ou tumulto; Roubo em templos com armas e de noite; Passar para o inimigo; Filtro amoroso que provoca a morte; Magia da pior espécie; Parricídio
– Absolutamente para as pessoas de classe inferior: Sublevação popular; Homicídio; Magia de espécie inferior; Delitos de lesa-majestade
– Não absolutamente, mas sim alternativamente com a condenação às minas para a classe inferior: Violação de sepultura; Falsificação de moeda e outras falsificações; Rapto de pessoas
– Absolutamente para os escravos: Consulta no oráculo sobre assuntos relativos ao senhor; Auxílio prestado para violar mulheres ou rapazes.
Jesus era um homem livre de condição peregrina, isto é, não cidadão romano.
Jesus foi condenado a morte agravada. Se examinamos os capítulos pelos quais este tipo de morte se infligia aos indivíduos de condição peregrina e humiliores, comprovaremos que apenas dois deles podem ser levados em consideração: sublevação popular e delito de lesa majestade.
As penas por delitos de lesa-majestade foram, na realidade, desiguais e de muito diversa aplicação no tempo. Ora, o delito de sedição foi sempre grave e castigado com a pena máxima.
Desta forma, Jesus foi condenado por delito de lesa-majestade. Devemos concluir que o grupo de Jesus protagonizou uma revolta armada contra os romanos.
A formação das lendas da paixão
Paulo escreve aos coríntios:
Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu mesmo havia recebido: Que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, (l Coríntios 15, 3-4)
Esta passagem não diz nada de historicamente novo, mas oferece a chave da formação da primeira lenda da paixão, o bloco narrativo sobre o qual se edificaram os Evangelhos: «segundo as Escrituras». Efectivamente, à narração da paixão pode atribuir-se o mesmo processo formativo que ao resto da lenda evangélica: o elemento aglutinador e desencadeante é uma profecia bíblica aplicada a Jesus.
A motivação é puramente religiosa, não histórica: a primeira geração cristã teve que assimilar o trauma da crucificação, o «escândalo da cruz» e conseguiu-o por meio da sua integração num plano divino anunciado já pelos profetas.
A narração da paixão é um bloco narrativo autónomo, que evoluiu por sua conta. Podem considerar-se nele as seguintes etapas, de acordo com o processo da formação das tradições:
a) Estrato 1: uma memória real e fiel dos factos tal como ocorreram. Os depositários desta memória eram os contemporâneos de Jesus, a sua família, os seus seguidores, os seus companheiros de armas… O conteúdo essencial era a detenção pelas tropas romanas, a condenação pelo prefeito, a crucificação, o enterro numa fossa comum e a dispersão do grupo na Galileia.
b) Estrato 2: uma primeira modificação da memória do sucedido para apresentar Jesus como um profeta pacífico e alheio à luta armada.
c) Estrato 3: uma segunda distorção dos factos promovida no seio da comunidade de origem helenista anterior a Paulo, radicada provavelmente na Antioquia, talvez em Damasco. Nesta comunidade forjou-se a crença na ressurreição de Jesus e no seu messianismo. A partir desta crença elaboraram-se os primeiros cartapácios de passagens bíblicas explicativas que se aplicaram a um rudimentar e primeiro esquema narrativo.
d) Estrato 4: elaboração de uma sequência narrativa literária em língua grega, habilmente ajustada ao contexto judeu, com a criação da lenda do juízo de Jesus perante o Sinédrio. O principal motivo era, agora, demonstrar que Jesus não foi um sedicioso contra o Império romano. Este é o documento que está na base da narração da paixão de Marcos, conhecida pelos demais evangelistas. Parece que Paulo não a conheceu ou que, de qualquer forma, a quis ignorar.
A Resistência contra o domínio Romano
Interessante é o levantamento do «Egípcio», na década de cinquenta, sob a procuradoria de Félix. Flávio Josefo oferece uma crónica da situação do país naqueles momentos. Homens mentirosos e enganadores, sob o pretexto de estarem inspirados por Deus, procuravam inovações e mudanças.
O caso mais notório foi o de outro profeta:
Apresentou-se no país um homem charlatão que ganhou fama de profeta. Reuniu umas trinta mil pessoas ludibriadas por ele e levou-as desde o deserto até ao Monte das Oliveiras, a partir de onde era possível penetrar à força em Jerusalém e, depois de se impor à guarnição romana, reinar sobre o povo como um tirano, para o que tomaria como guarda pessoal os que entrassem com ele. Porém, Félix adiantou-se ao seu ataque e foi ao seu encontro com as tropas romanas. (Flávio Josefo, Guerra 2, 261-263)
O texto resumido oferece, de forma condensada, o guião estratégico de uma revolta contra os romanos na Judeia: refúgio logístico no deserto, concentração no Monte das Oliveiras, assalto à guarnição romana.
Um contingente armado
Agora, cabe-nos investigar qual foi exactamente o delito de sedição do grupo de Jesus. Nas narrações dos Evangelhos aparecem alguns textos chave. Um deles é a referência à espada que Pedro utilizou para agredir um dos atacantes no Monte das Oliveiras. Examinaremos detalhadamente esta questão, pois é o fio pelo qual desenrolaremos o novelo.
A lenda de Lucas acerca da última ceia conclui com a seguinte passagem:
Depois acrescentou: «Quando vos enviei sem bolsa, nem alforge, nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?». «Nada», responderam eles. E ele acrescentou: «Mas agora quem tem uma bolsa que a tome, assim como o alforge, e quem não tem espada, venda a capa e compre uma. Porque, digo-vo-lo eu, deve cumprir-se em mim esta escritura: ‘Foi contado entre os malfeitores’. Efectivamente, o que me diz respeito toca o seu termo». Disseram-lhe eles: «Senhor, aqui estão duas espadas». Mas ele respondeu-lhes: «Basta!» (Lucas 22,35-38)
Esta passagem ressalta que, na narração evangélica, as espadas aparecem já antes da menção do seu uso no Monte das Oliveiras.
O fortíssimo episódio do Monte das Oliveiras é referido nos quatro Evangelhos: Marcos 14, 26-52; Mateus 26, 30-56; Lucas 22, 39-53; João 18, 1-12.
Os três sinópticos dizem que Jesus e os seus discípulos saíram de noite em direcção ao Monte das Oliveiras. João limita-se a assinalar que era do outro lado da torrente Cédron, o que é correcto. Os historiadores confessionais deviam explicar como é que este grupo de homens conseguiu sair de noite de uma cidade amuralhada com as portas fechadas e vigiadas. Se o governador não mandava os seus soldados vigiar as portas é porque era um incompetente digno de escárnio.
Passemos ao episódio do uso das armas.
Lucas escreve: “Vendo aqueles que o cercavam o que ia suceder, perguntaram-lhe: Senhor ferimo-los à espada?” Lc. 22, 49).
Os quatro evangelhos relatam, de seguida o episódio da agressão.
“Então um dos que estavam presentes, tirando a espada, feriu o criado do sumo sacerdote e cortou-lhe uma orelha.” (Mc 14,47)
João diz que o espadachim era Pedro.
Crítica histórica
Esta “atestação múltipla” reflecte a tergiversação cristã dos acontecimentos, adoptando-os à crença no Jesus pacífico, não havendo espaço para as armas. E contudo elas aparecem.
Estamos pois em condições de aplicar o critério de dificuldade. Se aparecem armas e confrontos armados, é porque realmente os houve: ninguém na primeira geração cristã, teria inventado uns dados tão contrários às crenças professadas.
8 – O ensinamento de Jesus
Não consta historicamente que Jesus exercesse uma importante actividade como pregador. O seu ensinamento, se é que o houve, deve-se ter limitado a reproduzir a doutrina de João Baptista. A tradição posterior adjudicou-lhe uns «discursos» (logia) que, na maior parte, reflectem o processo de exaltação teológica da sua figura como profeta, Messias e Filho de Deus. Contudo, é possível que alguns logia remetam para elementos da sua pregação real, isto é, a doutrina de João Baptista.
9 – Discrepâncias com a família
A família de Jesus situava-se na órbita espiritual de João Baptista e discordou abertamente da opção armada adoptada por Jesus e pelos seus companheiros. Não havia discrepância alguma em aspectos doutrinais, de tal modo que depois da morte de Jesus a sua família encabeçou o movimento que Baptista tinha iniciado.
10 – Batalha, captura e morte
A estratégia do golpe armado do contingente de Jesus era a usual: concentração no Monte das Oliveiras e assalto ao Templo, como simples preâmbulo para a intervenção divina. Os conjurados eram um grupo numeroso, certamente mais de doze. Os romanos atacaram-nos e desbarataram-nos numa acção diurna. Jesus e mais alguns foram capturados, talvez por acaso. Condenados à morte, foram imediatamente crucificados e os seus corpos foram atirados para uma vala comum. O resto dos conjurados fugiu para a Galileia.
11 – Tiago, o irmão de Jesus
Entre a morte de Jesus e as primeiras informações acerca da primitiva comunidade cristã de Jerusalém há um total vazio histórico. Partindo dos dados conhecidos que concernem às situações anterior e posterior, podemos esboçar as seguintes circunstâncias. O projecto do grupo armado ficou completamente desbaratado. A família de Jesus, que se tinha oposto à violência, beneficiou da nova inclinação. Tiago foi a referência principal da nova corrente. A tudo isto, o espírito dos Macabeus continuou operante e lançou a semente do que ia ser um dos movimentos espirituais mais potentes da humanidade: Jesus tinha sido um mártir.
Tiago, o irmão de Jesus
Nos escritos primordiais cristãos aparecem seis pessoas com o nome de Tiago. Delas, o único que tem consistência histórica é Tiago, o irmão de Jesus. Este Tiago é objecto de referência em dois documentos de indiscutível autenticidade: a Carta de Paulo aos Gálatas e as Antiguidades Judias de Flávio Josefo.
Tiago aparece em dois Evangelhos primordiais na lista de irmãos de Jesus:
Não é ele o carpinteiro filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? (Marcos 6, 3)
Não é ele o carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós? (Mateus 13, 55-56)
Tiago na primeira comunidade de Jerusalém
Todas as fontes cristãs, tanto antigas como tardias, registam o lugar relevante ocupado por Tiago na primeira comunidade depois da morte de Jesus.
Dispomos do testemunho autêntico e crucial de Paulo:
“Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para visitar Pedro e fiquei com ele quinze dias. Não vi mais nenhum dos Apóstolos a não ser Tiago, irmão do Senhor. (Gálatas l, 18-19) (…) e tendo reconhecido a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram considerados as colunas, estes deram-nos as mãos, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, para que nos fôssemos aos gentios e eles aos circuncidados”. (Gaiatas 2, 9-10)
O livro dos Actos dos Apóstolos:
Pedro dirigiu-se a casa de Maria, mãe de João, por sobrenome Marcos. Eles abriram e, ao vê-lo, ficaram estupefactos. Fazendo-lhes sinal com a mão para se calarem contou-lhes como o Senhor o havia tirado da prisão e acrescentou: «Mandai dizer tudo isto a Tiago e aos irmãos». Depois retirou-se dali e foi para outro sítio. (Actos dos Apóstolos 12, 12 e 16-17)
Tiago é reconhecido como o chefe da comunidade cristã de Jerusalém desde o primeiro momento. O livro dos Actos dos Apóstolos assim o reconhece no chamado «concílio de Jerusalém»:
Toda a assembleia ficou em silêncio e se pôs a ouvir Barnabé e Paulo descreverem os milagres e prodígios que Deus realizara entre os pagãos por intermédio deles. Quando acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: «Irmãos, escutai-me. Simeão contou como Deus, ao princípio, Se dignou intervir para tirar de entre os pagãos um povo que fosse consagrado ao Seu nome.» (Actos dos Apóstolos 15, 12-14)
Por fim, num momento em que Pedro já não está em Jerusalém, o livro dos Actos dos Apóstolos insinua o lugar importante de Tiago na comunidade judia cristã: Quando chegámos a Jerusalém, os irmãos receberam-nos com alegria. No dia seguinte, Paulo foi connosco a casa de Tiago e todos os anciãos aí se reuniram. » (Actos dos Apóstolos 21, 17-21)
Os testemunhos cristãos:
“O irmão do Senhor, Tiago, recebeu a Igreja com os apóstolos”. (Hegesipo, citado por Eusébio, Historia eclesiástica 2, 23, 4-5)
A morte de Tiago
A morte de Tiago é um dos factos mais bem documentados da história do cristianismo primitivo. Relata-o uma fonte não cristã (Flávio Josefo) e várias fontes cristãs entre os séculos II e IV. Apenas Paulo goza de uma comparência histórica tão sólida como Tiago.
Flávio Josefo, historiador judaico-romano (37 a 100 depois de Cristo), relata:
O sumo sacerdote Anano, o jovem, convocou um Sinédrio de juízes e apresentou perante ele o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e mais alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a Lei e entregou-os para serem lapidados. Os cidadãos tidos como os mais moderados e mais escrupulosos cumpridores da Lei ficaram muito entristecidos por este facto e enviaram uma mensagem secreta ao Rei pedindo-lhe que ordenasse a Anano que se abstivesse de proceder deste modo. Efectivamente, não se tinha procedido correctamente neste primeiro assunto. Alguns inclusive foram ao encontro de Albino, que vinha de Alexandria, e recordaram-lhe que Anano não tinha competências para convocar o Sinédrio sem o consentimento do procurador. Convencido por estas informações, Albino escreveu iradamente da sua parte e depôs Anano do sumo-sacerdócio devido à sua acção. (Antiguidades 20, 197-2003)
12 – A comunidade de Jerusalém
O movimento no qual Jesus tinha participado prosseguiu, mas descartando por completo a luta armada. Passados alguns anos regressaram a Jerusalém num contexto de expectativa escatológica. Entre os que compareceram em Jerusalém encontravam-se a mãe e os irmãos de Jesus. Começou o processo de exaltação de Jesus e de João Baptista, tidos como mártires de significação macabeia. Jesus foi considerado o profeta cuja morte em martírio anunciava a chegada do fim dos tempos, a vinda do Messias. O grupo de fiéis de Jerusalém manteve-se sempre dentro da mais estrita ortodoxia judia. O dirigente da comunidade foi Tiago, o irmão de Jesus.
Um grupo de judeus helenísticos acreditou que o martírio do profeta Jesus marcava o início do tempo final; neste expectante período, Israel abria-se a todas as nações, eliminando as prescrições limitativas da Lei, em particular a circuncisão. Como consequência, os pagãos que desejavam agregar-se ao povo eleito não eram obrigados a circuncidar-se, nem a cumprir as prescrições rituais. Tanto os judeus em geral como os cristãos judeus, cujo chefe era Tiago, recusaram esta crença. Os helenistas foram perseguidos e fugiram para Damasco e para Antioquia, onde estabeleceram as bases do cristianismo pagão.
Paulo, depois de perseguir os cristãos helenistas, converteu-se à crença dos seus perseguidos e levou-a à recusa da Lei de Moisés. Por este motivo confrontou-se com os cristãos judeus de Jerusalém, em particular com Tiago. As duas correntes cristãs acabaram por se separar. Por causa da destruição de Jerusalém no ano 70, os cristãos judeus dispersaram-se pelas regiões de língua semítica do Próximo Oriente.
Epílogo – Perfil esquemático de Jesus.
Mais com lógica hipotético-deductiva e “exercendo uma suave pressão sobre os factos”, propõe-se o seguinte perfil como plausível.
A Galileia, sob o reinado de Herodes Antipas, vivia em paz e inclusive em prosperidade. Numa povoação cujo nome não conhecemos, mas que se encontrava numa comarca não helenizada, morava uma família composta pelo pai, José, pela mãe, Maria, cinco irmãos, Jesus, Tiago, Simão, Judas e Joseto, e algumas irmãs.
Quando surgiu no Vale Jordão a figura de João, Jesus distinguiu-se pela sua fidelidade ao asceta do deserto e juntou-se ao grupo dos seus discípulos, iniciando uma actividade de pregador e de baptizador. A certa altura a sua família congregou-se à volta de João Baptista, dando provas do vigor da sua vivência religiosa e apocalíptica.
A Galileia autónoma desempenhava o papel de santuário e refúgio para os movimentos de resistência contra a dominação romana da Judeia, sobretudo em Jerusalém.
Desaparecido João, dispersada a comunidade do Jordão, os activistas optaram por se refugiarem na segurança do deserto, onde instalaram as suas bases de recrutamento e treino. A partir do seu refúgio, os conjurados realizavam campanhas de consciencialização através dos povoados da Galileia, empenhando-se em dar às suas intervenções um carácter de religiosidade.
Jesus estava convencido de participar numa missão desejada por Deus. A sua família inquietou-se. Comungavam dos ideais político-religiosos do movimento surgido em volta de Baptista, mas recusavam absolutamente a luta armada. Neste contexto de esperança pacífica fortaleceu-se a figura de Tiago, em torno da qual se configurou a autêntica herança de João Baptista. Aproveitando uma incursão dos conjurados na comarca da sua residência, os seus tentaram convencer Jesus da inconsequência da sua tentativa. «Está fora de si», diziam. Mas Jesus não se deixou convencer e cortou relações com a sua família.
O projecto de insurreição foi-se perfilando no quadro de um levantamento em Jerusalém por ocasião da Páscoa. A estratégia era a tradicional nas revoltas centradas na Cidade Santa. Os amotinados, pouco mais que uma centena, estabeleceriam a sua base logística no deserto da Judeia, a pouca distância de Jerusalém. Ao entardecer, ocultando as suas espadas de dois gumes, ir-se-iam concentrando no Monte das Oliveiras. Quando se abrissem as portas da cidade entrariam e irromperiam no pátio do Templo, fechando os portões e fortificando-se ali.
Ao amanhecer de um dia de Abril, quando o contingente de insurrectos se predispunha a descer o Monte das Oliveiras, atravessar a torrente do Cédron e irromper pela cidade, os soldados treinados da legião auxiliar romana caíram sobre eles. A batalha foi curta, mas mortífera. Os legionários esfaquearam muitos e capturaram três, entre eles um dos que parecia encabeçar os galileus. Os restantes conjurados deixaram cair as armas e escaparam para o deserto, a partir de onde regressaram à Galileia desconcertados pelo abandono do seu Deus.
Os prisioneiros foram levados imediatamente ao pretório. Num sumaríssimo julgamento, sem necessidade de testemunhos, pois tinham sido encontrados com as armas na mão, Jesus e os dois insurrectos foram condenados a mors aggravata em suplício de cruz por delito de laesa maiestas populi romani. A sentença executou-se de imediato. O secretário do prefeito, ao redigir a sentença, que tinha de ser reduzida a escrito e de imediato remetida para Roma, solicitou informação acerca do nome de Jesus. Uma vez mortos, os cadáveres dos supliciados foram atirados para uma vala comum em cal viva.
Os fugitivos chegaram à Galileia e informaram a família de Jesus da tragédia. A consternação foi profunda entre os seus parentes. Esqueceram-se por completo das divergências que os tinham separado e, já que não se podia honrá-lo como macabeu vitorioso, começou-se a honrá-lo como um macabeu mártir.
Passados uns anos, quando Jerusalém já quase se tinha esquecido do incidente, a família de Jesus, liderada por Tiago e apoiada por alguns dos antigos companheiros dos mártires, sentiram de novo o apelo apocalíptico e resolveram congregar-se em Jerusalém para esperar, já sem provocações armadas, pela vinda do Messias salvador, que era evidente que já não podia demorar. O movimento de João Baptista empreendia um novo rumo, desta vez sob a tranquila e prudente direcção de Tiago, o irmão de Jesus.
A mensagem de João, de Jesus e de Tiago, transplantada para o meio indo-europeu por obra e génio de Paulo, medrou e desenvolveu-se até aos dias de hoje.

EVENGELHOS GNÓSTICOS E APÓCRIFOS

Avangelhos Gnósticos-Apócrifos
Evangelhos Gnósticos / Evangelhos Apócrifos

Em Julho de 2004, comprei por 12,15 euros o livro Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels, Edição “Via Óptima” de 2002, tradução do original Inglês de 1979.
É um livro que faz a apresentação das principais controvérsias levantadas pelos chamados evangelhos gnósticos.
“Gnóstico” vem da palavra grega “gnosis”, em geral traduzida como conhecimento.
Assim como aquele que pretende nada saber sobre a realidade absoluta é chamado agnóstico (literalmente “não conhecedor”), a pessoa que afirma conhecer esse tipo de questões é chamado “gnóstico” (conhecedor).
Da forma como o termo é utilizado pelos gnósticos poderíamos traduzi-lo por “compreensão”, pois a “gnósis” envolve um processo intuitivo de auto-conhecimento. E o auto-conhecimento, afirmam os gnósticos, é o conhecimento da natureza humana e do destino humano. E conhecer-se a si próprio é conhecer simultaneamente Deus; é este o segredo da gnósis.

Com esta base de princípio, desenvolveram-se várias teorias teológicas sobre Deus e sobre Jesus Cristo.
Alguns cristãos gnósticos chegaram a defender que Deus fora criado pela Humanidade, de modo que esta descobriu por si própria, a partir do seu potencial interior, a revelação da verdade.
Muitos defendiam que o sofrimento pessoal é provocado pela ignorância e não pelo pecado. A falta de conhecimento (auto-conhecimento representado pela revelação intuitiva) provoca na pessoa um estado de ser que é motivado por impulsos que não entende.

Da doutrina dos evangelhos gnósticos, Elaine Pagels debruça-se sobre os seguintes temas:
1 -A Controvérsia sobre a Ressurreição de Cristo;
Alguns gnósticos chamavam à visão literal da ressurreição “a fé dos néscios”. A ressurreição não era um acontecimento singular ocorrido no passado. Simbolizava a forma como era possível experimentar a presença de Cristo no momento presente. O importante não era a visão literal mas sim a visão espiritual. Assim o gnósticos “Evangelho de Maria” interpreta as aparições da ressurreição como visões recebidas em sonhos ou em transes extáticos.
2 – Um só Deus, Um só Bispo: A política do Monoteísmo;
Para os gnósticos aquele que a maioria dos cristãos adora como criador, Deus e Pai é, na realidade apenas a imagem do verdadeiro Deus. Alcançar a gnósis envolve o conhecimento da verdadeira divindade.
Os bispos apresentam-se como representantes de Deus Pai, mas na verdade são apenas representantes da imagem do verdadeiro Deus. O gnóstico, que adquiriu o verdadeiro conhecimento, não está sujeito à autoridade dos bispos.
3 – Deus Pai/ Deus Mãe.
As diversas teorias gnósticas vão desde dois deuses, um macho que gere todas as coisas e outro fêmea que cria todas as coisas, até um Deus só masculino ou só feminino.
4 – A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos;
Para os gnósticos Jesus não era um ser humano; era antes um ser espiritual que se adaptava à natureza humana. Jesus rejubila nas alturas perante a flagelação, a coroação com espinhos, o carregamento da cruz, a crucificação.
Esta visão gnóstica não era boa para os cristãos perseguidos pelo poder romano que viam no sofrimento de Cristo o exemplo para o seu tormento. Não é por acaso que os quatro evangelhos canónicos, escritos já em época de perseguição romana, se debruçam tão pormenorizadamente nos episódios que levam à crucificação.
5 – A Quem pertence a Verdadeira Igreja;
Para os cristãos gnósticos aquilo que distingue a igreja falsa da verdadeira não é a relação desta com o clero, mas sim o entendimento dos seus membros e a qualidade da sua relação mútua. “Aqueles que pertencem à vida havendo sido iluminados, discriminam por si próprios aquilo que é verdadeiro e falso. Não tentam dominar os outros nem se sujeitam aos bispos e diáconos, esses canais sem água”
6 – Gnósis: o Auto-conhecimento como conhecimento de Deus.
O “Evangelho de Tomé” diz: Jesus disse: deixai aquele que busca continuar a buscar até encontrar. Quando encontrar, ficará perturbado. Quando ficar perturbado, ficará espantado e terá também primazia sobre todas as coisas.

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Em Setembro de 2004 encontrei em Salamanca, Livraria Cervantes, um livro com os textos completos dos Evangelhos Apópcrifos (17,00 euros), que, evidentemente, inclui os gnósticos. Não inclui os diversos apócrifos Actos dos Apóstolos, Cartas e Apocalipses
O livro “Los Evangelios Apócrifos” tem os seguintes capítulos

1. Textos Fragmentários:
A – Evangelhos apócrifos perdidos
B – Fragmentos em Papiro;
C – Frases ou sentenças de Jesus, citadas por escritores

2 – Apócrifos da Natividade:
A – proto-evangelho de Tiago;
B – Evangelho do Pseudo- Mateus;
C – Livro da Infância do Salvador.

3 – Apócrifos da Infância:
A – Evangelho do Pseudo-Tomé;
B – Evangelho Árabe da Infância;
C – História de José o carpinteiro;
D – Evangelho Arménio da Infância.

4 – Apócrifos da paixão e ressurreição:
a – Evangelho de Pedro
b- Evangelho de Nicodemos / Actas de Pilatos;
c – Carta de Pilatos a Tibério,
d – Carta de Tibério a Pilatos;
e – Correspondência entre Pilatos e Herodes;
f – Tradição de Pilatos;
g – Morte de Pilatos;
h – declaração de José de Arimateia;
i – Vingança do Salvador;
j – Sentença de Pilatos
k – Evangelho de Barnabé

5 – Apócrifos assuncionistas;
A – Livro de S. João Evangelista;
B – Livro de João Arcebispo de Tessalónica;
C – Narração do Pseudo José de Arimateia

6 – Cartas do Senhor:
a- Correspondência entre Jesus e Abgaro;
b – Carta do Domingo.

7 – Apócrifos gnósticos de Nag Hammadi (deserto do Egipto):
A – Evangelho de Tomé
B – Evangelho de Filipe.

“Apócrifo” significa oculto, misterioso. Os gnósticos apresentavam os seus escritos como revelações secretas, dirigidas a um reduzido número de eleitos, iniciados na gnósis.
A proliferação desta classe de literatura foi extraordinária no que se refere a evangelhos e depois a outros géneros literários relacionados com os apóstolos, no plano histórico, epistolar e apocalíptico.
Com intenção de esclarecer alguns pontos obscuros na tradição evangélica (por exemplo no que se refere à virgindade de Maria e aos irmãos de Jesus) e satisfazer a curiosidade geral para conhecer mais pormenores acerca da infância, apareceu no final do séc. II, o “Proto-evangelho de Tiago”, que foi um autêntico best-seller e deu origem a muitas narrações inspiradas nele. Apareceram outras composições relacionadas com diversos temas, como por exemplo o “Evangelho de Nicodemos” sobre o tema da paixão e o “Livro de João Evangelista” sobre a assunção de Maria.
A multiplicação de escritos deste género evidenciavam a necessidade de fixar um “Canon” dos livros que se consideravam portadores autênticos da revelação e de excluir todos os que usurpavam o nome e autoridade apostólica para difundir as suas próprias ideias. Este processo foi longo e não isento de contradições até que no séc. IV (Sínodo de Hipona em 393 e Sínodo de Cartago em 397) ficou definitivamente fixado nos 27 livros que actualmente integram o Novo Testamento.
A exclusão de toda a literatura marginal que esta classificação levava consigo introduziu um novo significado do termo “apócrifo” que passou a significar “não autêntico”, não canónico.
Devido à definição deste Canon oficial, os livros apócrifos perderam a sua importância e foram em muitos casos condenados e perseguidos os seus detentores.
Alguns deles perderam-se durante séculos, tendo sido descoberta em 1945 uma colecção de livros apócrifos no deserto do Egipto e, mais recentemente ainda, foi notícia a descoberta do gnóstico Evangelho de Judas Iscariote.

Apesar de terem sido proibidos pela Igreja, muitas histórias contactadas por estes escritos apócrifos, ficaram fazendo parte da fé tradicional. É o caso dos Pais de Maria, que passaram a santos venerados pela Igreja Católica, S. Joaquim e Santa Ana.

Os evangelhos da Natividade e da Infância, influenciados pela consideração de que Jesus é Deus, fazem uma história de milagres do Menino Jesus, a falar logo que acaba de nascer e a distribuir curas e ressurreições por todas as pessoas que vai encontrando.
Também aparece o menino caprichoso que tira a vida ao colega que o empurra ou manda as árvores descer e subir os seus ramos, conforme lhe convier para as suas brincadeiras e dos seus colegas.
É interessante verificar que no Alcorão são feitas citações referentes a Jesus, tiradas de escritos apócrifos, como o facto de Jesus falar no berço e o de ter soprado em bonecos de argila em forma de pássaro, que se transformaram, pela acção do sopro, em pássaros verdadeiros.

Ao lermos estes textos ficamos a compreender porque é que não foram considerados com a autenticidade suficiente para merecerem crédito.

Terminamos com uma citação do livro “Evangelhos Gnósticos” de Elaine Pagels, acerca dos escritos ultimamente descobertos.
Estas descobertas “sugerem que o cristianismo podia ter-se desenvolvido em direcções muito diferentes – ou que o cristianismo tal como o conhecemos podia não ter sobrevivido de todo. Caso o cristianismo tivesse mantido a sua multiformidade, podia muito bem ter desaparecido da história, juntamente com dúzias de cultos religiosos rivais da antiguidade. Acredito que devemos a sobrevivência da tradição cristã à estrutura organizativa e teológica que a igreja emergente desenvolveu.”

TORÁ

Torá mod
Torá

A Lei de Moisés

Edição Bilingue (Hebraico-Português)
do Templo Israelita Brasileiro Ohel Yaacov
Centro Educativo Sefaradi em Jerusalém e
Editora e Livraria Sefer Lda
S. Paulo, 2001

O livro foi-me oferecido por um amigo israelita.
Começamos por ter de nos habituar à leitura que é feita da direita para esquerda, ou seja o livro começa no que consideramos a última página de qualquer livro escrito em português e vai avançando para trás até concluir no que consideramos a primeira página de um livro em português.
A Torá é formada pelos primeiros cinco livros da Bíblia, também chamados o Pentateuco (= cinco rolos), cujos nomes são (em grego e em hebraico):

Génesis – Bereshit
Êxodo – Shemót
Levítico – Vayikrá.
Números – Bamidbar
Deuteronómio – Devarim

Os primeiros nomes dos livros são os que derivam do grego e estão relacionados com o conteúdo, enquanto as denominações hebraicas são retiradas da primeira ou principal palavra do início de cada livro.

Esta edição da Torá é uma edição explicitamente feita para acompanhar nas sinagogas a leitura das Parashot e também das Haftarot recitadas aos sábados nas sinagogas.
Para isso, além dos cinco livros da Torá tem também trechos dos profetas lidos nas sinagogas, entre eles as chamadas Haftarot da Consolação, extraídas de Isaías.

Haftorá (plural haftarot) é um trecho de texto dos profetas lidos na sinagoga após a leitura da parashá (plural parashot), que é o nome dado ao texto semanal da Torá lido na sinagoga.
Este livro é portanto um livro preocupado com o rito religioso.
Por isso, apresenta a diferença praticada pelos dois ritos judaicos, o Sefarad (praticado pelos Sefaradim ou Sefarditas – Judeus originários da Península Ibérica) e o Ashquenaz (praticado pelos ashkenazim ou asquenazitas – originários da Alemanha).

Antes do texto bíblico, tem as orações para a leitura da Torá, começando pelo
“Erguimento da Torá”
“Quando o Hazan chega a Bimá, a Torá é colocada sobre ela: Os Sefaradim costumam erguê-la (hagbahá) antes da leitura e os Ashkenazim depois. Ergue-se o rolo da Torá aberto, para que a Congregação veja o texto manuscrito e diz-se, de pé:
Sagrada e pura é a nossa Torá. Moisés é o homem da verdade e a Torá que nos legou é verdadeira. E esta a Lei que Moisés pôs diante dos filhos de Israel, de acordo com o eterno, por intermédio de Moisés. A Torá (lei) é árvore da vida para os que nela se apegam e os que nela se apoiam são bem-aventurados.”
Seguem-se outras orações como a
“Bênção do Bar-Mitsvá”
“Quando um jovem é chamado a subir à Torá pela primeira vez, ao completar treze anos, seu pai, depois da bênção posterior da Torá, diz:
Baruch shepetaráni meonsho shelaze (Bendito sejas que me isentaste da responsabilidade deste)”.

A Torá é dividida em 54 parashot – porções semanais – a serem lidas durante o ciclo de um ano. Começa na “1. Porção Semanal Bereshit” (Princípio do Génesis) e acaba na “54. Porção Semanal Vezot Haberachá” (cap. 33 e 34 do Deuteronómio).
Importantes são as profusas anotações que o texto nos fornece. São constituídas por comentários destinados a “uma melhor compreensão da Torá. Muitos foram os que dedicaram toda a sua vida ao estudo desta obra. Em nossa edição procuramos seleccionar um pequeno número entre os muitos existentes. Acreditamos que esta pequena selecção de comentários poderá trazer esclarecimentos aos leitores, assim como motivá-los a aprofundar o seu conhecimento por meio de grandes autores”.

Começa com o seguinte comentário à primeira palavra da Bíblia (Bereshit = no princípio):
“1. No princípio – Os primeiros capítulos do Génesis narram os primórdios da Criação. Por serem muito profundos, é difícil compreender todos o seu conteúdo sem um conhecimento prévio dos ensinamentos da Torá, conforme foram revelados do Talmud e na Cabalá.”
Depois continua com comentários a cada palavra importante que vai aparecendo na redacção da criação do mundo por Deus, por exemplo porque é que a palavra Elohim (Deus) é plural e não singular.
O versículo 21 tem a seguinte anotação:
21. grandes peixes – Os antigos babilónios acreditavam que os deuses criaram o mundo depois de uma árdua luta entre fabulosos dragões que haviam precedido à criação. A Torá ensina que mesmo estes são produto da criação de Deus. É por este motivo que no relato do Génesis nenhum animal é designado particularmente, excepto os tanihim (grandes peixes), que significam também dragões.
O versículo 15 do cap. 2 do Génesis (“E tomou o Eterno Deus o homem e colocou-o no jardim do éden para o cultivar e guardar”), tem a seguinte anotação:
“15. para o cultivar – Ainda no Paraíso, Deus ordenou ao homem cultivar o jardim, porque aquele que evita o trabalho, sem criar nem produzir, deixa de representar a imagem do Criador”
O subsequente versículo 18 (“E disse o Eterno Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma companheira”) tem os seguintes comentários:
“18. o homem só – A Torá condena o celibato. O homem é obrigado a contrair matrimónio desde a idade de dezoito até vinte anos se assim o pode fazer (Talmud)
Porém o homem que tem de abandonar o estudo da Torá para procurar manutenção, fica isento desta obrigação até formar uma situação; pois segundo o Talmud, o homem deve primeiro preparar o lar, plantar uma vinha (estabelecer trabalho) e, depois, casar. (Maimónides)
“Quem não tem esposa, vive sem alegria e sem bênção (Talmud)
“Aquele que se casa com mulher virtuosa é como se cumprisse todos os preceitos da Lei”
E mais à frente no versículo 23 – e esta será chamada mulher:
“Na escolha de uma esposa é preciso considerar, dizem nossos doutores, a virtude e a piedade da pessoa e, sobretudo, as dos Pais e irmãos e não a sua fortuna e posição social. Assim a felicidade doméstica é infalivelmente assegurada”.
No capítulo 3, versículo 11 (“acaso da árvore que te ordenei não comer dela, comeste?”) tem a seguinte anotação:
“O saudoso mestre, o Grão-Rabino de Viena, Prof. Chajes, perguntou quando estudávamos no Seminário sobre a narração das árvores do Paraíso: árvore do saber e árvore da vida: será que Deus prefere gente ignorante? Porque assim como foi evitado que Adão e Eva comessem da árvore da vida, poderia também ter sido obstruído o gozo da árvore do saber, o que não foi contra a vontade divina. Então qual foi a razão da expulsão do Éden. E Rav Chajes responde: o pecado consistia em terem comido de uma fruta madura que eles não plantaram, para a qual não contribuíram em nada, nem esforço e menos ainda cuidado. Cada ser humano deve aspirar à sabedoria, mas ela tem que ser obtida por esforço próprio, pois somente o pensamento independente do homem, o reconhecimento pessoal, o aprofundamento individual no estudo, tem valor e prevalece.”

Como conclusão da apresentação deste livro, não posso deixar de dizer que é pena não estar à disposição de todo o público interessado uma publicação como esta, que nos dá a conhecer o fundamento da rica cultura judaica.

ALCORÃO

alcorao def
Em 31 de Agosto de 2001 comprei uma edição do Alcorão dos livros de bolso Europa-América, em dois volumes
Custou-me 1440$00 cada volume.
Passados 11 dias deu-se o ataque às Torres de Nova York. Fui retirar as citações do Alcorão sobre os personagens dos cristãos.
O Alcorão tem Jesus como o Messias e a sua Mãe, Maria, a maior entre todas as mulheres dos mundos.
Não aceita a crucificação de Jesus, pois Deus, todo-poderoso, nunca permitiria essa morte indigna a um seu enviado.

Transcrições do
                                Al Corão
Cap. II
62. Na verdade, os que crêem, os que praticam o judaísmo, os cristãos e os sabeus – os que crêem em Deus e no último dia e praticam o bem – terão a recompensa junto do seu Senhor. Para eles não há temor.
253. Fizemos sobressair uns profetas em relação a outros. Entre eles há uns a quem Deus falou; a outros elevou-os em hierarquia. Demos a Jesus, filho de Maria, as provas e auxiliámo-lo com o Espírito Santo (isto é, o anjo Gabriel).
Cap. III
Nascimento de Maria
33. Deus escolheu a Adão, a Noé, à família de Abraão e à família de Imran sobre os mundos.
34. São descendentes uns dos outros. Deus tudo ouve, é omnisciente.
35. Recorda-te de quando a mulher de Imran, Hana, disse: «Senhor meu; ofereço consagrar-Te o que está no meu ventre. Aceita-mo. Tu és o que tudo ouve, o Omnisciente.»
36. Quando deu à luz, disse: «Senhor meu: dei à luz uma fêmea.» Deus sabia melhor do que ela o que ela havia dado à luz! «O varão não é como a fêmea. Dar-lhe-ei o nome de Maria. A ela e à sua descendência ponho-os sob a Tua protecção, livrando-os do Demónio.»
37. O Senhor aceitou-a de bom grado e fê-la crescer de maneira formosa e dela se encarregou Zacarias. Cada vez que Zacarias entrava na sua cela, encontrava junto dela alimento. Perguntou um dia: «Ó Maria! Como tens isto?» Respondeu: «Vem de Deus.» Deus alimenta, sem conta, a quem quer.
Revelação de Zacarias
38. Ali suplicou Zacarias ao seu Senhor, dizendo: «Dá-me, vinda de Ti, uma descendência boa. Tu escutas a súplica.»
39. Chamaram-no os anjos, enquanto ele estava de pé, rezando no santuário. Então disseram: «Deus te anuncia o nascimento de João Baptista40, que confirmará o Verbo de Deus, senhor, casto e Profeta entre os justos.»
40. Disse: «Senhor meu! Como terei um filho se já atingi a velhice e minha mulher é estéril?» Respondeu: «Deus faz o que quer.»
41. Disse: «Senhor meu! Põe-me à prova.» Respondeu-lhe o anjo: «A prova consistirá em não falares aos homens durante três dias, a não ser por sinais. Lembra-te muito do teu Senhor, louva-O à noite e de manhã.»
Revelação a Maria
42. E recorda-te de quando os anjos disseram: «Ó Maria! Deus te escolheu e te purificou. Escolheu-te entre todas as mulheres dos mundos.
43. Ó Maria! Ora diante do teu Senhor, prostra-te e inclina-te com os que se inclinam na oração.»
44. Estes são relatos procedentes do Oculto e que te revelamos, ó Profeta!, pois não estiveste ao lado deles (os judeus) quando tiravam à sorte os seus calamos para saberem quem se encarregaria de Maria e não estiveste ao lado deles quando disputavam.
45. Recorda-te de quando os anjos disseram: «Ó Maria! Deus te anuncia um Verbo, emanado d’Ele, cujo nome é o Messias, Jesus, filho de Maria; será ilustre nesta vida e na outra; e estará entre os próximos a Deus.
46. Ele falará aos homens, no berço, assim como na maturidade, e estará entre os virtuosos.»
47. Ela disse: «Senhor meu: como terei um filho se não me tocou nenhum mortal?» Ele disse: «Assim será. Deus cria o que quer. Quando decreta alguma coisa, diz apenas: ‘Seja!’, e é.»
48. Deus lhe ensinará o Livro, a Sabedoria, a Tora e o Evangelho.
Biografia de Jesus
49. E fui enviado aos Filhos de Israel dizendo: «Vim a vós com um sinal procedente do vosso Senhor: para vós eu criarei, de argila, qualquer coisa de semelhante na forma aos pássaros; soprarei e isso transformar-se-á em pássaros, com a permissão de Deus; curarei o cego de nascença e o leproso, ressuscitarei os mortos, com a permissão de Deus. Anunciar-vos-ei o que comeis e o que entesourais em vossas casas. Realmente, há nisso um sinal para vós, se sois crentes.
50. Fui-vos enviado para corroborar o que me precedeu: a Tora, e para vos permitir parte do que se vos proibiu. Vim até vós como uma prova proveniente do vosso Senhor. Temei a Deus e obedecei-me.
51. Deus é o meu Senhor e o vosso Senhor. Adorai-O! Esse é o verdadeiro caminho.»
52. Quando Jesus notou a sua incredulidade, disse: «Quais são os meus defensores na causa de Deus?» Responderam os Apóstolos: «Nós somos os defensores de Deus. Cremos em Deus. Testemunha que nós Lhe estamos submetidos.
53. Senhor nosso! Cremos no que revelaste e seguimos o Enviado: inscreve-nos como testemunhas.»
54. Os judeus urdiram uma intriga contra Jesus, mas Deus desfez os seus planos. Deus é o melhor, porque tudo sabe!
55. Recorda-te de quando Deus disse: «Ó Jesus! Eu te chamarei e te elevarei para Mim; purificar-te-ei com respeito aos que não crêem e colocarei aqueles que te seguiram por cima daqueles que não crêem, até ao dia da Ressurreição. Em seguida efectuar-se-á o vosso regresso para Mim, e julgarei, entre vós, aquilo em que divirjais.
56. Aos que não crêem, atormentá-los-ei com um duro castigo nesta vida e na outra. Não terão quem os auxilie.
57. Aos que creiam e pratiquem o bem dar-lhes-ei a sua retribuição: Deus não ama os injustos.»
58. Isso to recitamos, ó Profeta, tomando-o dos versículos e da lembrança divina.
Natureza de Jesus
59. Jesus é, diante de Deus, igual a Adão, que criou do pó. Depois disse-lhe: «Sê», e foi.
Cap. IV
171. Realmente o Messias, Jesus, Filho de Maria, é o enviado de Deus, o seu Verbo, que nasceu de Maria e de um espírito precedente d’Ele. Crede em Deus e nos seus Enviados. Não digais: Três. Deixai-o. É melhor para vós. Realmente, o Deus é um Deus único. Louvado seja! Teria um filho quando tem o que está nos Céus e na Terra? Deus basta como garante!
172. Nem o Messias nem os anjos próximos do senhor se sentiram inferiores por serem servidores de Deus.

Cap. V
75. O Messias, filho de Maria, não é mais do que um Enviado; antes dele viveram outros Enviados; sua mãe era autêntica; ambos comiam alimentos terrenos.
82. Nos que dizem: “nós somos cristãos” encontrarás os mais próximos em amor, para os que crêem, e isso porque entre eles há sacerdotes e monges e não se enchem de orgulho.
Jesus, Profeta de Deus
110. Recorda-te, quando Deus disse: «Jesus, filho de Maria, recorda o benefício que dispensei sobre ti e sobre tua mãe quando te auxiliei com o Espírito Santo», dizendo: «Falarás aos homens tanto no berço como na maturidade.»
Recorda-te de quando te ensinei o Livro, a Sabedoria, a Tora e o Evangelho, e quando criaste de argila algo semelhante à forma dos pássaros, com a minha permissão, e depois de soprares saíram pássaros, com a minha permissão; quando curaste o cego de nascença e o leproso, com a minha permissão; quando fizeste sair os mortos do seu sepulcro, com a minha permissão; e quando afastei de ti os Filhos de Israel no momento em que lhes trazias provas manifestas; aqueles de entre eles que eram incrédulos disseram: «Isto não passa de magia!»
111. Recordai-vos de quando inspirei os Apóstolos, dizendo: «Crede em Mim e no Meu Enviado.» Responderam: «Cremos: testemunha que estamos submetidos à vontade de Deus.»
112. Recordai-vos de quando disseram os Apóstolos: «Jesus, filho de Maria! Pode fazer descer o teu Senhor uma mesa servida, vinda do Céu?» Respondeu: «Temei a Deus se sois crentes.»
113. Disseram: «Desejaríamos comer dela; os nossos corações tranquilizar-se-iam, saberíamos que nos disseste a verdade e estaríamos entre as testemunhas.»
114. Jesus, filho de Maria, disse: «Deus meu! Senhor! Faz-nos descer do Céu uma mesa servida, que para o primeiro e o último de nós seja uma festa e um prodígio vindo de Ti! Agracia-nos, pois Tu és o melhor dos benfeitores!»
115. Deus disse: «Faço-vo-la descer, mas quem entre vós não creia depois castigá-lo-ei com tal tormento que não voltarei a castigar com ele a ninguém dos mundos»
116. Recordai-vos de quando Deus disse: Jesus filho de Maria, disseste porventura aos homens: Tomai-me junto de minha mãe, como dois deuses, prescindindo de Deus?» Respondeu: «Louvor a Ti! Não me incumbe dizer o que não é verdade; se o tivesse dito, o saberias. Tu sabes o que há em minha alma, mas eu não sei o que há em Tua alma. Tu, só Tu és omnisciente!
117. Não lhes disse senão o que me mandaste: Adorai a Deus, meu Senhor e vosso Senhor! Fui o teu pregador tempo que permaneci entre eles. Quando me chamaste, Tu foste o Único Observador; Tu és testemunho sobre todas as coisas.
CAPÍTULO XIX
MARIA
Em nome de Deus, beneficente e misericordioso.
Anunciação a Zacarias
1. Caf, ha, yá, ain, çad.
2. Recordação da misericórdia do teu Senhor para com o seu servo Zacarias.
3. Recorda-te de quando invocou ao seu Senhor em segredo.
4. Dizendo: «Senhor meu! Os ossos debilitaram-se em mim e a cabeça branqueja de velhice.
Jamais tive queixa, Senhor meu, das súplicas que Te dirigi.
5. Eu temo, depois da minha morte, por meus parentes. Minha mulher é estéril, mas concede-me, de junto de Ti, um filho.
6. Que herde de mim e herde da família de Jacob. Faz, Senhor meu, que Te seja agradável.»
7. «Zacarias: nós te anunciamos o nascimento de um menino cujo nome será Yáhiya (João).
Antes não lhe demos nenhum homónimo.»
8. Zacarias perguntou: «Senhor meu! Como terei um filho, se minha mulher é estéril e eu cheguei ao limite da vida?»
9. Respondeu: «Assim falou o teu Senhor: isso é fácil para Mim. Antes disso te criei e não eras nada.»
10. Disse: «Senhor meu! Faz-me um milagre!» Deus respondeu: «O teu milagre consistirá em que não falarás aos homens durante três noites apesar de estares são.»
11. Zacarias saiu do Templo perante as suas gentes, e por sinais indicou-lhes que louvassem o Senhor de manhã e à tarde.
Missão de João
12. «João! Toma o Livro com fervor e devoção.» Demos-lhe na sua meninice a sabedoria.
13. A piedade e a pureza vindas de Nós. Foi temente a Deus.
14. Foi bom para os seus pais; não foi violento nem desobediente.
15. Paz sobre ele no dia em que nasceu, no dia em que morreu e no dia em que seja restituído à vida!
A Anunciação. Nascimento de Jesus
16. E recorda no Livro quando Maria se afastou de sua família para um lugar do Oriente.
17. E tomou, longe deles, um véu. Enviámos-lhe o nosso Espírito, e este tomou perante ela a forma perfeita de um mortal.
18. Ela exclamou: «No Clemente me refugio contra ti, se és piedoso!»
19. Respondeu: Na verdade, eu sou o Enviado do teu Senhor para te dar um filho puro.»
20. Ela disse: «Como terei um filho se não me tocou um mortal e não sou uma prostituta?»
21. Respondeu: «Assim falou o teu Senhor: isso é fácil para Mim. Pô-lo-emos como sinal entre os homens e como misericórdia proveniente de Nós. É assunto decidido.»
22. Ela ficou grávida e retirou-se para um lugar afastado.
23. Chegaram-lhe as dores do parto, junto do tronco da palmeira. Exclamou: «Oxalá tivesse morrido antes disto e estivesse completamente esquecida!»
24. Mas Gabriel, de perto, gritou-lhe: «Não te entristeças! A teus pés o teu Senhor fez correr um riacho.
25. Sacode para ti o tronco da palmeira; cair-te-ão tâmaras maduras.
26. Come, bebe e tranquiliza-te. Se vires algum mortal, diz-lhe por sinais: ‘Eu fiz voto ao Clemente de não falar e não falarei a ninguém»
27. Quando voltou para a sua família levando o menino, disseram: «Maria! Trazes algo extraordinário!
28. Irmã de Aarão! Teu pai não era homem de mal, nem tua mãe prostituta.»
29. Maria apontou para o menino para que o interrogassem. Disseram-lhe: «Como vamos dirigir a palavra ao menino que está no berço?»
30. Mas este respondeu: «Eu sou servo de Deus. Ele me dará o Livro e me fará Profeta.
31. Abençoa-me onde quer que esteja e prescreveu-me, enquanto viva, a oração e a esmola.
32. E também o carinho filial por minha mãe. Deus não me fez violento, orgulhoso.
33. Tenho a paz desde o dia em que nasci, assim como no dia em que morrer e no dia em que for restituído à vida!»
34. Este é Jesus, filho de Maria, Verbo da Verdade sobre o qual discutem os cristãos.
35. Deus não precisa de adoptar um filho. Louvado seja! Quando decreta uma coisa, não tem mais do que dizer: «Seja!», e é.
36. Deus é o meu Senhor e o vosso Senhor. Adorai-O! Esse é um recto caminho.
37. As seitas divergem entre si. Ai dos que não acreditarem na visão de um grande dia!
38. No dia em que venham a Nós, escutem e observem! Mas os injustos, hoje, estão num extravio evidente.
39. Adverte-os, Muhammad, acerca do dia da perdição, quando se decrete a Ordem enquanto eles estejam descuidados porque não crêem.
40. Com efeito, nós herdaremos a Terra e todos os que sobre ela estão voltarão a Nós.

Cap. XXI
91. Recorda-te daquela que conservou a sua virgindade. Infundimos nela parte do nosso Espírito. Dela e de seu Filho fizemos um sinal perante os mundos.

Cap. XXIV
46. Não discutais com os Adeptos do Livros (Bíblia) a não ser de maneira amável (com excepção daqueles que, entre eles, são injustos). Dizei: “Cremos no que nos foi revelado e no que vos foi revelado. O nosso Deus e o vosso Deus são uno e nós estamos-Lhe submetidos”
Cap. LXVI
12. Deus acrescenta: “ Maria, filha de Joaquim, que conservou a sua virgindade; insuflámos nela parte do Nosso Espírito, o qual confirmou os decretos e os livros do seu Senhor e esteve entre os que rezam.”