TERÇO e CANCRO

ANTICANCRO

David Servan-Schreiber é doutor em ciências neurocognitivas e a sua tese de doutoramento foi publicada pela revista “Science”. Em 2002 foi eleito o melhor psiquiatra clínico da Pensilvânia.

Após lhe ter sido diagnosticado um cancro no cérebro, dedicou-se ao estudo aprofundado de todos os factores que levam ao aparecimento do cancro e à cura ou atenuação dos seus efeitos. Desse estudo nasceu o livro “Anticancro, Um Novo Estilo de Vida”, que foi bestseller internacional. A tradução portuguesa foi publicada em 2008. É deste livro que de seguida, transcrevemos um dos capítulos, relacionado com a reza do terço.

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O Professor Dr. Luciano Bernardi, da Universidade de Pavia em Itália, tem-se interessado pelos ritmos corporais autónomos que constituem a base da fisiologia: variações do ritmo cardíaco, tensão arterial, respiração, etc. Estudou a forma como estes ritmos flutuam de um momento para o outro, em dife­rentes períodos do dia. Sabia que um equilíbrio estável entre esses biorritmos distintos talvez fosse o indicador mais preciso de boa saúde; em alguns estudos, a medição desse equilíbrio pode prever com precisão que se viverá mais quarenta anos.

O Dr. Bernardi identificou as condições que poderiam conduzir a uma desorganização temporária destes ritmos e analisou a forma como o corpo recuperava o seu equilíbrio. Para tal, pediu aos seus pacientes que fizessem exercícios como cálculo mental ou ler em voz alta, enquanto media as micro-variações do seu ritmo cardíaco, tensão arterial, irrigação cerebral e padrões de respiração. Desse modo, pôde constatar que o mais pequeno dos exercícios mentais stressantes tinha um efeito imediato nesses ritmos. Eles reagiam adaptando-se ao esforço, por menor que fosse. Mas a grande sur­presa adveio do que se designa por condição de «controlo». Para medir as alterações fisiológicas desencadeadas pelos exer­cícios mentais, estas tinham de ser comparadas com um estado dito neutro – um estado em que os pacientes falavam em voz alta, mas sem esforço mental ou tensão. Na experiência do Dr. Bernardi, o estado neutro consistia em pedir aos sujeitos que recitassem um texto que soubessem de cor, o que não requeria uma atenção par­ticular. Como os sujeitos viviam na Lombardia, uma região italiana profundamente católica, pensou, naturalmente, em pedir-lhe que rezassem o terço.

Quando os pacientes do Dr. Bernardi começaram a recitar uma série de Aves Maria em latim, os instrumentos do laboratório registaram um fenómeno totalmente inesperado. Todos os diferen­tes ritmos biológicos medidos começaram a ressoar. Alinharam-se, um a seguir ao outro, amplificando-se mutuamente para criar um padrão suave e harmonioso. Um milagre? Não necessariamente. O Dr. Bernardi não tardou a perceber que a explicação era bem mais simples. Em Itália, a congregação reza o terço à vez, com o padre. Cada recitação ocorre numa única expiração. A inalação que se segue ocorre durante a vez do padre.  Os pacientes haviam adop­tado naturalmente esse ritmo, enquanto diziam a oração durante a experiência. Ao fazê-lo, também se haviam adaptado mecânica e subconscientemente, a uma frequência de seis respirações por minuto que é precisamente o ritmo natural de flutuações nas outras funções biológicas que o Dr. Bernardi analisava (ritmo cardíaco, ten­são arterial, irrigação sanguínea do cérebro). O resultado dessa sin­cronização foi que o ritmo de cada função ressoava com os outros, reforçando-se mutuamente, tal como quando se está sentado num baloiço o impulso dianteiro das pernas, cronometrado na perfeição com o balanço para cima, amplifica o movimento.

Tal como na prática do ioga, os pacientes aprenderam a deixar a sua voz proferir cada sílaba do mantra, de modo a sentirem os sons vibrarem nas suas gargantas. Então, continuariam a seguir a sua exalação, até sentirem necessidade de inspirar novamente para a repetição seguinte. Bernardi observou precisamente os mesmos resultados obtidos com a oração da Ave Maria. A respiração dos pacientes adoptou automaticamente um ritmo de seis ciclos respi­ratórios por minuto; uma harmonização ou coerência com os rit­mos de outras funções fisiológicas autónomas. Intrigado, Bernardi pensou se essa semelhança surpreendente entre práticas religiosas tão distantes poderia ter raízes comuns. De facto, encontrou uma fonte histórica que sugeria que o terço fora introduzido na Europa por Cruzados que o haviam aprendido com os Árabes que, por sua vez, o haviam adaptado de práticas de monges tibetanos e mestres de ioga na índia.  É evidente que a descoberta de práticas que desencadeiam a harmonização de ritmos biológicos em prol do bem-estar e da saúde remontam ao passado mais distante.

Em 2006, Julian Thayer e Esther Sternberg, investigadores da Universidade de Ohio e do National Institute of Health dos EUA, publicaram em Annals ofthe New York Academy of Sciences uma análise de todos os estudos relativos à amplitude e variações dos ritmos biológicos. Concluíram que tudo o que amplifica variações – como sucede nos estados de ressonância ou «coerência» descri­tos por Bernardi – está associado a um número de benefícios para a saúde. Em particular:

– melhor funcionamento do sistema imunitário

– redução de inflamações

– melhor regularização de níveis de açúcar no sangue.

Estes são precisamente três dos principais factores que actuam contra o desenvolvimento do cancro.

Entre o nascimento, em que a amplitude dos ritmos biológicos é mais elevada, e a proximidade da morte, quando é mais baixa, a amplitude das variações (designadas em termos técnicos como «variabilidade») diminui cerca de 3% por ano. Isso significa que o corpo perde progressivamente a sua adaptabilidade; tem cada vez mais dificuldade em manter o equilíbrio, quando confrontado com os riscos do nosso ambiente físico e emocional. O enfraque­cimento deste equilíbrio nas funções corporais está associado a vários problemas de saúde ligados ao envelhecimento: hiperten­são, insuficiência cardíaca, complicações que advêm da diabetes, enfarte, morte súbita e, é claro, cancro.  Porém, acontece que esse equilíbrio – que podemos avaliar facilmente medindo a ampli­tude das variações do ritmo cardíaco – é também uma das funções biológicas que melhor reage ao treino mental da respiração e da concentração. Foi exatamente isso que o Dr. Bernardi descobriu ao mostrar o impacto de práticas tão ancestrais quanto a de um mantra budista e o terço.

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