IMACULADA CONCEIÇÃO

IMACULADA CONCEIÇÃO

PAPA CONTRA DOGMA?

O Papa Bento XVI acredita no dogma da Imaculada Conceição? É esta a pergunta que nos fica depois de lermos o livro do católico francês Jaques Duquesne “MARIA – A verdadeira história da Mãe de Jesus”.

Um capítulo do livro de Duquesne é dedicado à história do dogma da Imaculada Conceição, proclamado pelo Papa Pio IX no dia 8 de Dezembro de 1854. Apresentamos o resumo deste capítulo.

No dia 8 de Dezembro, festejamos a Imaculada Conceição da Virgem Maria, mãe de Jesus. Imaculada Conceição significa que Maria foi concebida sem pecado original, com que nascem todos os homens desde que Adão e Eva foram expulsos do paraíso.

O texto da proclamação do dogma, lido pelo Papa Pio IX diz exactamente: «declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, foi preserva­da e imune de toda a mancha da culpa original, desde o primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus omnipotente, em aten­ção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do género humano, foi revelada por Deus e deve portanto ser firme e constantemente acreditada por todos os fiéis”

O debate só tinha começado verdadeiramente na época de San­to Agostinho (século IV), dado que foi ele quem inventou a expres­são «pecado original» e formulou precisamente esta doutrina. De tal modo o fez que lhe atribuem a paternidade dela.

Antes dele, os Padres da Igreja tinham-se questionado sobre a santidade de Maria. Tertuliano tinha mesmo pretendido com o seu habitual ardor que Maria tinha sido renegada por Jesus porque não tinha tido fé nele. Orígenes, sem ir tão longe, explicava ao povo que ela tivera algumas ligeiras fraquezas. Opinião que repetia muitas vezes diante de bis­pos que, ao que parece, não viam nisso motivo para o contradizer. Também é verdade que, nessa mesma altura, ele adornava a Virgem de toda a espécie de virtudes e fazia dela um modelo para as mu­lheres.

Um outro Padre, Epifânio, considerava, contrariamente a Orígenes, que nunca Maria conhecera a menor fraqueza. Mas também lutava contra os grupos que a adoravam como uma deusa. Outros, como Gregório de Nazianzo, pensavam que ela tinha sido «purifica­da» no momento da Incarnação. Enfim, S. João Crisóstomo, que não estava para demasiados rodeios, multiplicava as censuras a Maria: ela não tinha acreditado com a necessária rapidez na mensagem do Anjo Gabriel, dado que lhe tinha feito uma pergunta; em Caná ela exibira-se mas recebera uma lição “bem merecida”.

Santo Agostinho sublinha que Jesus não sofreu o pecado original porque não foi fruto de um acto sexual. Mas Maria sim. Santo Agostinho, portanto não defende a imaculada Conceição.

No Concílio de Éfeso (431) defende-se que Deus, tendo criado a primeira Eva sem opróbrio, fez nascer a segunda sem mácula. A partir de então começa a florescer no Oriente a ideia da Imaculada Conceição.

No Ocidente, a história é outra. Há quem a admita mas há tam­bém quem se oponha. E não são uns quaisquer: chamam-se S. Ber­nardo e S. Tomás de Aquino. A sua tese é simples: o pecado original atingiu toda a humanidade sem qualquer excepção, senão Cristo não se poderia apelidar «salvador de todos os homens». A única graça de Maria foi a de ter sido purificada, não na altura da sua con­cepção mas apenas no momento do seu nascimento. É, no fim de contas, o mesmo que Santo Agostinho dissera.

Aparece, então, Duns Escoto. Um franciscano, por vezes apelidado de «doutor subtil», cuja obra é conside­rável. E também a sua influência.

Nesta época (séculos XIII e XIV) algumas ordens religiosas substi­tuíam-se, sobretudo nas cidades, aos padres das paróquias, para pregar a boa nova. E em questão de técnicas de enquadramento e animação das massas, estavam muito avançados em relação ao seu tempo.

Nas primeiras filas estavam os franciscanos e os dominicanos. Mas, unidos para difundir a devoção mariana, estavam em desacor­do sobre a Imaculada Conceição. Os dominicanos, com Tomás de Aquino, não só não acreditavam nela, mas também não admitiam o seu sentido. Pelo contrário, os franciscanos propagavam esta crença. Duns Escoto era o seu «campeão» em teologia mariana. Levou a cabo um considerável trabalho teológico. E foi ele quem «inflamou a França por Maria Imaculada».

Convém dizer que os tempos eram propícios: os grandes deba­tes sobre a redenção, a concepção virginal, a Trindade, a natureza humana e divina de Jesus tinham terminado, mesmo se aqui e além continuassem a surgir heresias. Os teólogos que povoavam as uni­versidades e os colégios (todos religiosos) começaram a explorar outros domínios. Aquilo que chamamos «mariologia» era um deles. Recomeçou-se a discutir muito (alguns séculos depois de Éfeso) os papéis e as qualidades respectivas de Jesus e da sua mãe. Sustenta­va-se que, depois da sua Ressurreição, Cristo tinha «sem qualquer dúvida» aparecido prioritariamente a Maria, facto de que não existe qualquer menção no Novo Testamento. Thomas A. Kempis, prová­vel autor da Imitação de Jesus Cristo — um livro que iria conhecer uma enorme difusão, ainda por cima com a ajuda da invenção da arte de imprimir — dizia até que «Maria era a sua única esperança», «a depositária da sabedoria de todos os livros do Antigo Testamento e dos Evangelhos». O francês Gerson, no entanto, prudente, qualifi­cava-a de «deusa do amor, não do amor impuro mas sim do amor divino».

Nestas atitudes «marianolátricas», a afirmação da Imaculada Con­ceição regressava, obviamente, com força. S. Bernardo e S. Tomás de Aquino tinham outrora repetido em todos os tons, como se viu, que se Maria nascesse sem pecado original, isso diminuiria a digni­dade de Cristo «como salvador universal de todos». Gerson replicava com uma subtileza: Jesus estava isento do pecado original por «direi­to próprio» e Maria «por privilégio».

Esta corrida aos louvores atingiu cúmulos.

Foi então que Duns Escoto interveio. Primeiramente não pondo em dúvida que Deus preservara Maria do pecado original. Depois, interrogando-se: quando é que Ele levou isso a cabo?  No momento da sua concepção pelos seus pais? Um instante depois? Ou passado algum tempo?… Resposta: só Deus sabe. Mas nós, nós devemos atri­buir a Maria «o maior grau de excelência possível». Resultado: es­creveu-se e pregou-se, depois dele, que Deus, no momento da criação, tinha posto de lado uma certa quantidade de «matéria pri­mordial» — a que existia antes do pecado original, que não fora portanto degradada por este — para que o corpo de Maria pudesse dela beneficiar. E dado que Maria não estava marcada pelo pecado original, ela não podia sofrer os seus efeitos, por exemplo a fadiga!

Era esquecer que Jesus — que não estava tocado pelo pecado origi­nal — tinha conhecido a fadiga, a angústia e a morte.

 Num tempo em que os teólogos «marianolatras» escreviam que o ventre de Maria, grávido, tinha inchado mais depressa que o das outra mulheres e que ela tinha alimentado melhor o feto que as outras, estas contradições a propósito do pecado original foram pouco notadas. Estes excessos não foram de nenhum modo conde­nados. E depois de Duns Escoto até à proclamação do dogma em 1854, a crença na Imaculada Conceição espalhou-se. Os religiosos levavam a cabo milhares de campanhas nesse sentido.

A iniciativa de Pio IX foi pois acolhida com satisfação, com entusiasmo até.

 

O debate sobre o pecado original continua, mas muitas vezes, numa prudente obscuridade. Convém relembrar a tese de Agostinho: Adão, ao pecar, «como que viciou a humanidade na sua raiz […]. Assim, qualquer homem [saído] dele e da sua esposa igualmente condenada depois de ter sido o instru­mento do seu pecado, que nasceria pela via dessa concupiscência carnal […] contrairia o pecado original. Pecado pelo qual, através dos erros e de dores di­versas, ele seria arrastado para o derradeiro suplício que não deve ter fim». Agostinho, que aliás era um cantor do amor de Deus e do amor por Deus, foi ao ponto de escrever que «Deus ao criar o homem, não ignorava, desde logo, que [este] pecaria e que a partir daí votado à morte, geraria filhos destinados a morrer e [que] esses mortais levariam tão longe a sua ferocidade criminosa que os animais privados de razão, de vontade […] viveriam entre eles na sua espé­cie com mais serenidade e paz que os homens cuja raça era nascida de um só»

Agostinho teve, quanto a esta concepção do pecado original, numerosos discípulos. Influenciou a teologia e a prática cristã até aos nossos dias. Sobretudo o Concílio de Trento (1546) estabeleceu o dogma do pecado original sem grande debate. O Cânon 2 do decreto conciliar afirma que o pecado original atingiu todos os homens, o cânon 3 que ele se transmitiu «por propagação e não por imitação», ou de outra maneira, que ele é hereditário, e o cânon 4 pre­cisa que os recém-nascidos trazem com eles esse pecado (e estão pois conde­nados ao Inferno) enquanto não forem baptizados…

O Catecismo da Igreja Católica, publicado por João Paulo II, continua no essencial dentro da mesma linha. Mas em 1985, o cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), reconhecia que «numa hipótese evolucionista do mundo, não há evidentemente lugar para qualquer pecado original». Ora, onze anos mais tarde, a 24 de Outubro de 1996, o Papa João Paulo II, numa mensagem à Academia Pontifícia das Ciências, admitia praticamente (e contrariamente ao seu  predecessor Pio XII na encíclica «Humani generis»), o que o cardeal Ratzinger chamava «hipótese evolucionista». Para, justamente, di­zer que se não tratava de uma simples hipótese: «Novos conhecimentos, escre­via ele, «conduzem a reconhecer na teoria da evolução mais do que uma hipótese. Efectivamente, é notável que esta teoria se tenha vindo progressiva­mente a impor ao espírito dos investigadores, em consequência de uma série de descobertas feitas em diversos ramos do saber. A convergência, em nada procurada ou provocada, dos resultados de trabalhos levados a cabo indepen­dentemente uns dos outros, constitui por si própria um significativo argumento a favor desta teoria»

Se aproximarmos o texto do Papa ao do seu teólogo preferido, dever-se-á concluir que eles deixam o dogma do pecado original em maus lençóis.

A teoria do pecado original, “inventada” por Santo Agostinho, tinha como pressuposto que o primeiro homem e a primeira mulher foram Adão e Eva, criados, com expressa intervenção de Deus. Como essa criação está agora posta de parte pela teoria da evolução, o pecado original também deixa de ter sentido. De facto em que altura da evolução se situaria o tal pecado, no homo sapiens, no Cro-Magnon, no Neanderthal?

Ora, se não há pecado original, o dogma de que Maria foi concebida sem esse pecado, deixa de fazer sentido.

Bom, o que verdadeiramente se conclui da teoria de Ratzinger (Papa Bento XVI) é que não só Maria mas todos os homens foram concebidos sem pecado original.

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