EVENGELHOS GNÓSTICOS E APÓCRIFOS

Avangelhos Gnósticos-Apócrifos
Evangelhos Gnósticos / Evangelhos Apócrifos

Em Julho de 2004, comprei por 12,15 euros o livro Os Evangelhos Gnósticos de Elaine Pagels, Edição “Via Óptima” de 2002, tradução do original Inglês de 1979.
É um livro que faz a apresentação das principais controvérsias levantadas pelos chamados evangelhos gnósticos.
“Gnóstico” vem da palavra grega “gnosis”, em geral traduzida como conhecimento.
Assim como aquele que pretende nada saber sobre a realidade absoluta é chamado agnóstico (literalmente “não conhecedor”), a pessoa que afirma conhecer esse tipo de questões é chamado “gnóstico” (conhecedor).
Da forma como o termo é utilizado pelos gnósticos poderíamos traduzi-lo por “compreensão”, pois a “gnósis” envolve um processo intuitivo de auto-conhecimento. E o auto-conhecimento, afirmam os gnósticos, é o conhecimento da natureza humana e do destino humano. E conhecer-se a si próprio é conhecer simultaneamente Deus; é este o segredo da gnósis.

Com esta base de princípio, desenvolveram-se várias teorias teológicas sobre Deus e sobre Jesus Cristo.
Alguns cristãos gnósticos chegaram a defender que Deus fora criado pela Humanidade, de modo que esta descobriu por si própria, a partir do seu potencial interior, a revelação da verdade.
Muitos defendiam que o sofrimento pessoal é provocado pela ignorância e não pelo pecado. A falta de conhecimento (auto-conhecimento representado pela revelação intuitiva) provoca na pessoa um estado de ser que é motivado por impulsos que não entende.

Da doutrina dos evangelhos gnósticos, Elaine Pagels debruça-se sobre os seguintes temas:
1 -A Controvérsia sobre a Ressurreição de Cristo;
Alguns gnósticos chamavam à visão literal da ressurreição “a fé dos néscios”. A ressurreição não era um acontecimento singular ocorrido no passado. Simbolizava a forma como era possível experimentar a presença de Cristo no momento presente. O importante não era a visão literal mas sim a visão espiritual. Assim o gnósticos “Evangelho de Maria” interpreta as aparições da ressurreição como visões recebidas em sonhos ou em transes extáticos.
2 – Um só Deus, Um só Bispo: A política do Monoteísmo;
Para os gnósticos aquele que a maioria dos cristãos adora como criador, Deus e Pai é, na realidade apenas a imagem do verdadeiro Deus. Alcançar a gnósis envolve o conhecimento da verdadeira divindade.
Os bispos apresentam-se como representantes de Deus Pai, mas na verdade são apenas representantes da imagem do verdadeiro Deus. O gnóstico, que adquiriu o verdadeiro conhecimento, não está sujeito à autoridade dos bispos.
3 – Deus Pai/ Deus Mãe.
As diversas teorias gnósticas vão desde dois deuses, um macho que gere todas as coisas e outro fêmea que cria todas as coisas, até um Deus só masculino ou só feminino.
4 – A Paixão de Cristo e a Perseguição aos Cristãos;
Para os gnósticos Jesus não era um ser humano; era antes um ser espiritual que se adaptava à natureza humana. Jesus rejubila nas alturas perante a flagelação, a coroação com espinhos, o carregamento da cruz, a crucificação.
Esta visão gnóstica não era boa para os cristãos perseguidos pelo poder romano que viam no sofrimento de Cristo o exemplo para o seu tormento. Não é por acaso que os quatro evangelhos canónicos, escritos já em época de perseguição romana, se debruçam tão pormenorizadamente nos episódios que levam à crucificação.
5 – A Quem pertence a Verdadeira Igreja;
Para os cristãos gnósticos aquilo que distingue a igreja falsa da verdadeira não é a relação desta com o clero, mas sim o entendimento dos seus membros e a qualidade da sua relação mútua. “Aqueles que pertencem à vida havendo sido iluminados, discriminam por si próprios aquilo que é verdadeiro e falso. Não tentam dominar os outros nem se sujeitam aos bispos e diáconos, esses canais sem água”
6 – Gnósis: o Auto-conhecimento como conhecimento de Deus.
O “Evangelho de Tomé” diz: Jesus disse: deixai aquele que busca continuar a buscar até encontrar. Quando encontrar, ficará perturbado. Quando ficar perturbado, ficará espantado e terá também primazia sobre todas as coisas.

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Em Setembro de 2004 encontrei em Salamanca, Livraria Cervantes, um livro com os textos completos dos Evangelhos Apópcrifos (17,00 euros), que, evidentemente, inclui os gnósticos. Não inclui os diversos apócrifos Actos dos Apóstolos, Cartas e Apocalipses
O livro “Los Evangelios Apócrifos” tem os seguintes capítulos

1. Textos Fragmentários:
A – Evangelhos apócrifos perdidos
B – Fragmentos em Papiro;
C – Frases ou sentenças de Jesus, citadas por escritores

2 – Apócrifos da Natividade:
A – proto-evangelho de Tiago;
B – Evangelho do Pseudo- Mateus;
C – Livro da Infância do Salvador.

3 – Apócrifos da Infância:
A – Evangelho do Pseudo-Tomé;
B – Evangelho Árabe da Infância;
C – História de José o carpinteiro;
D – Evangelho Arménio da Infância.

4 – Apócrifos da paixão e ressurreição:
a – Evangelho de Pedro
b- Evangelho de Nicodemos / Actas de Pilatos;
c – Carta de Pilatos a Tibério,
d – Carta de Tibério a Pilatos;
e – Correspondência entre Pilatos e Herodes;
f – Tradição de Pilatos;
g – Morte de Pilatos;
h – declaração de José de Arimateia;
i – Vingança do Salvador;
j – Sentença de Pilatos
k – Evangelho de Barnabé

5 – Apócrifos assuncionistas;
A – Livro de S. João Evangelista;
B – Livro de João Arcebispo de Tessalónica;
C – Narração do Pseudo José de Arimateia

6 – Cartas do Senhor:
a- Correspondência entre Jesus e Abgaro;
b – Carta do Domingo.

7 – Apócrifos gnósticos de Nag Hammadi (deserto do Egipto):
A – Evangelho de Tomé
B – Evangelho de Filipe.

“Apócrifo” significa oculto, misterioso. Os gnósticos apresentavam os seus escritos como revelações secretas, dirigidas a um reduzido número de eleitos, iniciados na gnósis.
A proliferação desta classe de literatura foi extraordinária no que se refere a evangelhos e depois a outros géneros literários relacionados com os apóstolos, no plano histórico, epistolar e apocalíptico.
Com intenção de esclarecer alguns pontos obscuros na tradição evangélica (por exemplo no que se refere à virgindade de Maria e aos irmãos de Jesus) e satisfazer a curiosidade geral para conhecer mais pormenores acerca da infância, apareceu no final do séc. II, o “Proto-evangelho de Tiago”, que foi um autêntico best-seller e deu origem a muitas narrações inspiradas nele. Apareceram outras composições relacionadas com diversos temas, como por exemplo o “Evangelho de Nicodemos” sobre o tema da paixão e o “Livro de João Evangelista” sobre a assunção de Maria.
A multiplicação de escritos deste género evidenciavam a necessidade de fixar um “Canon” dos livros que se consideravam portadores autênticos da revelação e de excluir todos os que usurpavam o nome e autoridade apostólica para difundir as suas próprias ideias. Este processo foi longo e não isento de contradições até que no séc. IV (Sínodo de Hipona em 393 e Sínodo de Cartago em 397) ficou definitivamente fixado nos 27 livros que actualmente integram o Novo Testamento.
A exclusão de toda a literatura marginal que esta classificação levava consigo introduziu um novo significado do termo “apócrifo” que passou a significar “não autêntico”, não canónico.
Devido à definição deste Canon oficial, os livros apócrifos perderam a sua importância e foram em muitos casos condenados e perseguidos os seus detentores.
Alguns deles perderam-se durante séculos, tendo sido descoberta em 1945 uma colecção de livros apócrifos no deserto do Egipto e, mais recentemente ainda, foi notícia a descoberta do gnóstico Evangelho de Judas Iscariote.

Apesar de terem sido proibidos pela Igreja, muitas histórias contactadas por estes escritos apócrifos, ficaram fazendo parte da fé tradicional. É o caso dos Pais de Maria, que passaram a santos venerados pela Igreja Católica, S. Joaquim e Santa Ana.

Os evangelhos da Natividade e da Infância, influenciados pela consideração de que Jesus é Deus, fazem uma história de milagres do Menino Jesus, a falar logo que acaba de nascer e a distribuir curas e ressurreições por todas as pessoas que vai encontrando.
Também aparece o menino caprichoso que tira a vida ao colega que o empurra ou manda as árvores descer e subir os seus ramos, conforme lhe convier para as suas brincadeiras e dos seus colegas.
É interessante verificar que no Alcorão são feitas citações referentes a Jesus, tiradas de escritos apócrifos, como o facto de Jesus falar no berço e o de ter soprado em bonecos de argila em forma de pássaro, que se transformaram, pela acção do sopro, em pássaros verdadeiros.

Ao lermos estes textos ficamos a compreender porque é que não foram considerados com a autenticidade suficiente para merecerem crédito.

Terminamos com uma citação do livro “Evangelhos Gnósticos” de Elaine Pagels, acerca dos escritos ultimamente descobertos.
Estas descobertas “sugerem que o cristianismo podia ter-se desenvolvido em direcções muito diferentes – ou que o cristianismo tal como o conhecemos podia não ter sobrevivido de todo. Caso o cristianismo tivesse mantido a sua multiformidade, podia muito bem ter desaparecido da história, juntamente com dúzias de cultos religiosos rivais da antiguidade. Acredito que devemos a sobrevivência da tradição cristã à estrutura organizativa e teológica que a igreja emergente desenvolveu.”

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