JESUS – O GALILEU ARMADO

José Montserrat Torrents é doutorado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e é considerado um erudito de prestígio internacional no campo do cristianismo antigo.
Este livro foi escrito em Castelhano em 2007 e a tradução portuguesa é de Julho de 2008. Em Abril de 2009 custou-me 17,60 euros.
A conclusão a que chega o autor é muito controversa, mas vale a pena ler o livro, que não é grande (197 páginas) e tem considerações e propõe critérios de investigação histórica da vida de Jesus que não podem ser desprezados. Assim, vamos ver se conseguimos fazer um resumo de todo o livro, que é composto de um Prólogo, 12 capítulos e um Epílogo.
Prólogo
Alexandre, César, Adriano…
Mas nunca Alexandre histórico, César histórico, Adriano histórico: estas expressões não se usam.
Então, porquê «Jesus histórico»?
A expressão «Jesus histórico» não foi criada pela ciência da história, mas pela teologia.
O Jesus histórico não se contrapõe ao Jesus não histórico, mas ao Jesus da fé.
Nem «Jesus histórico» nem «Jesus da fé»: Jesus, o Galileu, visto na perspectiva dos grandes iniciadores das religiões e dos movimentos espirituais da humanidade: Buda, Pitágoras, Platão, Maomé… Uma figura de Jesus estudada com os mesmos procedimentos históricos com os quais se estuda Alexandre, César, Akhenaton… O Jesus da ciência histórica.
1 – Rotas de acesso
Métodos e procedimentos desta obra
O ponto de partida é constituído pelos factos narrados por documentos históricos universalmente conhecidos: vida e morte de João Baptista, existência de Jesus e do seu irmão Tiago, execução de Jesus por Pôncio Pilatos, relato das cartas de Paulo, morte de Tiago no ano 62. Há uma segunda série de factos que se extraem da literatura lendária por meio de critérios de historicidade.
Valor histórico dos Evangelhos
O historiador laico reconhece que a narração dos Evangelhos contém dados históricos, mas que devem ser esclarecidos caso a caso. Os historiadores confessionais reconhecem que a narração evangélica contém lendas, a examinar caso a caso. Para o historiador laico, uma passagem evangélica é lendária se não se demonstra o contrário; para os historiadores confessionais, uma passagem é histórica se não se demonstra o contrário.
O autor deste ensaio é laico e escreve para laicos. Não tem a menor intenção de interferir com o universo dos crentes, nem é movido por qualquer animosidade relativamente às comunidades cristãs.
2 – Os documentos
História, mito, lenda
As biografias dos fundadores das grandes religiões e dos grandes movimentos espirituais contêm todas narrações maravilhosas por este motivo são consideradas pelos historiadores fundamentalmente como lendas.
BUDA
O Cânone Pali é a fonte biográfica mais antiga sobre Buda. Os especialistas consideram-no lendário e religiosamente orientado, mas ao mesmo tempo reconhecem que pode transmitir dados históricos aos quais se deve dar atenção. Ao historiador crítico compete discerni-los.
MAOMÉ
Os dados biográficos de Maomé foram transmitidos oralmente depois da morte do Profeta “pelos que memorizam” ou “tradicionais”. Cada relato constituía um hadiz e o conjunto dos hadizes deu lugar à assuna ou tradição. Em finais do século IX da era cristã a assuna começou a ser compilada, originando seis livros canónicos redigidos entre 870 e 915.
As primeiras biografias escreveram-se mais de cem anos depois da morte de Maomé e as primeiras compilações da hadizes fize¬ram-se duzentos anos depois da morte do Profeta.
Assim, as «vidas de Maomé» são escritos basicamente lendários que contêm muitas informações às quais, historicamente, se deve pres¬tar atenção, a esclarecer caso a caso.
O historiador atribuirá às «vidas» de Jesus o mesmo tratamento que às «vidas» de Buda e de Maomé, sem privilégio algum. Isto é, considerará que as «vidas» de Jesus são escritos que per¬tencem ao género literário da lenda, ainda que contenham dados histó¬ricos válidos, como muitas outras lendas.
Visionários, fraudulentos e crédulos
Os historiadores e os antropólogos falam da «formação de crenças» e da «criação de narrações» atribuídas não a uma pessoa mas sim a grupos, inclusive sucessivos, no seio dos quais terá surgido a lenda. Até se descreve o que se denominou «horizonte de expectativas»: os receptores esperam determinadas mensagens e aco¬lhem-nas sem reservas. No âmbito das religiões, muitas propostas res¬pondem a fenómenos visionários do emissor, transmitidos aos recepto¬res e aceites por estes. Nestes casos não se pode falar de falsários nem de dolo. Um exemplo claro é a afirmação de Paulo de que viu Jesus ressuscitado. Não se pode descartar em absoluto que Paulo tivesse tido uma visão do ressuscitado; estas coisas sucedem. Então, Paulo não faz mais do que comunicar a sua experiência e os seus destinatários, con¬fiando na sua sinceridade, prestam-lhe fé.
Creio que os Evange¬lhos e os Actos dos Apóstolos são composições maioritariamente literá¬rias e, portanto, polémicas.
Fontes criticamente históricas
As fontes indiscutivelmente históricas que se referem a Jesus são as cartas de Paulo, as obras de Flávio Josefo e uma breve passagem dos Anais de Tácito. Cotejados com estas fontes, os textos lendários, Evan¬gelhos e Actos dos Apóstolos, permitem extrair bastantes dados que completam as lacunas das fontes históricas.
Reunindo os dados de Paulo, de Tácito e de Flávio Josefo, podemos estabelecer este perfil biográfico: Jesus era um judeu da época do imperador Tibério; tinha um irmão chamado Tiago; foi crucificado pelo prefeito Pôncio Pilatos; foi chamado o Cristo.
O resto tem que ser extraído dos escritos lendários por meio de procedimentos probabilísticos.
Critérios de historicidade
Limitar-me-ei a examinar os dois critérios realmente essenciais e rigorosos.
O primeiro é o da dificuldade, ou da contradição, e centra-se em acções ou ditos de Jesus que tenham desconcertado ou criado dificuldades à Igreja primitiva. O essencial deste critério é que dificilmente a Igreja primitiva se teria incomodado a criar um material unicamente susceptível de a deixar numa posição difícil ou debilitada nas disputas com os seus oponentes.
Exemplos: o baptismo de Jesus por João. A comunidade primitiva não o pôde ter inventado, uma vez que apresentava a grande dificuldade de colocar Jesus abaixo de João e o descrevia como recebendo um baptismo como perdão dos pecados. Por conseguinte, a relação de Jesus com João passa a ter uma alta qualificação de realidade histórica.
Outro exemplo: a presença de armas no Monte das Oliveiras. Este dado estava em contradição com o carácter pacífico da pregação de Jesus e comprometia os cristãos perante os seus ouvintes pagãos. Portanto, não é um dado inventado.
O segundo critério é o da atestação múltipla. Trata-se de factos ou ditos testemunhados em mais do que uma fonte literária independente. Este critério é válido somente se as fontes são indiscutivelmente independentes. Há que considerar que as atestações dos Evangelhos sinópticos e João não remetem directamente para o facto, mas sim para a tradição anterior. Assim, por exemplo, estes historiadores excedem-se ao aplicar este critério à chamada dos doze apóstolos por Jesus, aduzindo que vem testemunhada nos três sinópticos e indirectamente em João. Estas quatro fontes remetem para uma fonte anterior única, à qual não se pode aplicar o critério de atestação múltipla. Deste modo, a chamada dos apóstolos não é um facto histórico e deve explicar-se por outras vias, sendo a mais provável a que remete para uma construção teológica sobre o tema das doze tribos de Israel.
Em contrapartida, há atestação múltipla de Tiago, o irmão de Jesus: testemunham-no três fontes independentes: os sinópticos, Paulo e Flávio Josefo.
O chamado «critério de coerência» não constitui um procedimento especial, mas sim o simples uso das operações lógicas da dedução e da implicação para ampliar o acervo das constatações prováveis. Exemplo: atribuir a Jesus consciência de expectativa escatológica é coerente com a mentalidade e o imaginário da sociedade na qual vivia. E de modo negativo: atribuir às autoridades judias de Jerusalém o conluio com o prefeito Pôncio Pilatos não é coerente com as informações oferecidas por Flávio Josefo e Filo acerca deste governador.
A extracção de dados históricos a partir dos escritos lendários por meio dos critérios de historicidade será sempre insegura e ambígua e nunca conduzirá à certeza histórica.
3 – A glória dos Macabeus
No ano 168 a.C., Antíoco IV, o sucessor de Alexandre Magno na Síria, propôs-se liquidar de uma vez por todas a resistência dos judeus à sua política de helenização.
Antíoco suprimiu os sacrifícios, destruiu os livros sagrados, obrigou os recalcitrantes a comer carne de porco. A perseguição desenfreada de Antíoco ocasionou muitas vítimas.
Três dos filhos de Matatias, Judas, de sobrenome Macabeu, Jonatas e Simão, também eles sacerdotes, organizaram militarmente e dirigiram a revolta entre os anos 166 e 134 a.C. A vitória sobre Lísias (163 a.C.) representou a restituição da independência. Simão uniu na sua pessoa, com duvidosa legalidade, os títulos de Sumo-sacerdote e de governante «até que surgisse um verdadeiro profeta», como diz o Livro dos Macabeus (14, 41). Através de diversas vicissitudes, a casa dos Asmoneus manteve a independência da Judeia até ao ano 63 a.C., quando Pompeio uniu o território à república de Roma.
Quando Israel sucumbiu ao poder de Roma, e em particular quando a Judeia começou a ser governada directamente por funcionários romanos, exacerbaram-se os sentimentos macabeus da população subjugada.
A glória dos Macabeus continuou a alimentar o imaginário popular dos judeus contemporâneos de Jesus. A esperança de uma mudança configurava-se como um regresso dos reis sacerdotes, que expulsariam os romanos e fariam emergir o reino de Deus, presente, mas oculto. A luta armada não era uma excrescência marginal na mentalidade dos judeus oprimidos por Roma: era um artigo da fé num Deus único que tinha eleito Israel como um povo por si destinado a dominar o mundo.
4 – Um galileu chamado Jesus
Jesus era um judeu de Galileia, filho de Maria e José.
Não há registos históricos acerca de Maria. A primeira tradição apresenta-a como uma mulher forte; a segunda tradição converte-a em profetisa.
Não se sabe qual foi o lugar de nascimento e residência de Jesus. Nazaré não existia na época. O nome de nazarenos ou nazoraïos vem, provavelmente, do facto de Jesus ser um nazir, isto é, um devoto que tinha feito um voto religioso ou político-religioso.
5 – Os irmãos de Jesus e Madalena
Jesus tinha quatro irmãos e algumas irmãs, uma delas, quem sabe, chamada Salomé. Os seus irmãos Tiago, Simão e, provavelmente, Judas foram personagens importantes na primeira comunidade de Jerusalém. Tiago e Judas foram objecto de veneração especial a partir da quarta geração cristã.
Não há dados históricos acerca de Maria Madalena. Da lenda evangélica pode-se extrair que foi a discípula predilecta de Jesus, que o tinha acompanhado nas suas deambulações pela Galileia. Há uma ténue probabilidade de que fosse algo mais, talvez a sua prometida. As menções dos textos gnósticos carecem de valor histórico.
6 – João Batista
A historicidade de João Baptista está avalizada pelo testemunho indiscutível de Flávio Josefo. João praticava um baptismo para o perdão dos pecados e pregava o advento do reino de Deus. Em contexto apocalíptico, esta doutrina revestia-se de potencialidades políticas e foi por esta razão que João foi executado por Herodes. Jesus fez-se discípulo de João e foi-o até à sua própria morte. A única diferença entre João e Jesus era o postulado da luta armada, não apoiada por João e assumida por Jesus e pelos seus. Jesus, e provavelmente o seu irmão Tiago, limitaram-se a expandir o ensinamento de João Baptista. A história do movimento político-religioso na Galileia, nesta época, simplifica-se: João, Jesus e Tiago estão na mesma linha doutrinal.
7 – A luta armada
O direito penal romano
Jesus foi condenado segundo o direito penal romano.
Segundo o Cadex Justiniani que nos permite conhecer o tratamento de delitos e penas durante o Império, e pena de morte em forma agravada (crucificação, fogueira, suplício em espectáculos) era aplicada às seguintes situações:
- Em geral e absolutamente: Incêndio na cidade provocando motim ou tumulto; Roubo em templos com armas e de noite; Passar para o inimigo; Filtro amoroso que provoca a morte; Magia da pior espécie; Parricídio
- Absolutamente para as pessoas de classe inferior: Sublevação popular; Homicídio; Magia de espécie inferior; Delitos de lesa-majestade
- Não absolutamente, mas sim alternativamente com a condenação às minas para a classe inferior: Violação de sepultura; Falsificação de moeda e outras falsificações; Rapto de pessoas
- Absolutamente para os escravos: Consulta no oráculo sobre assuntos relativos ao senhor; Auxílio prestado para violar mulheres ou rapazes.
Jesus era um homem livre de condição peregrina, isto é, não cidadão romano.
Jesus foi condenado a morte agravada. Se examinamos os capítulos pelos quais este tipo de morte se infligia aos indivíduos de condição peregrina e humiliores, comprovaremos que apenas dois deles podem ser levados em consideração: sublevação popular e delito de lesa majestade.
As penas por delitos de lesa-majestade foram, na realidade, desiguais e de muito diversa aplicação no tempo. Ora, o delito de sedição foi sempre grave e castigado com a pena máxima.
Desta forma, Jesus foi condenado por delito de lesa-majestade. Devemos concluir que o grupo de Jesus protagonizou uma revolta armada contra os romanos.
A formação das lendas da paixão
Paulo escreve aos coríntios:
Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu mesmo havia recebido: Que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, (l Coríntios 15, 3-4)
Esta passagem não diz nada de historicamente novo, mas oferece a chave da formação da primeira lenda da paixão, o bloco narrativo sobre o qual se edificaram os Evangelhos: «segundo as Escrituras». Efectivamente, à narração da paixão pode atribuir-se o mesmo processo formativo que ao resto da lenda evangélica: o elemento aglutinador e desencadeante é uma profecia bíblica aplicada a Jesus.
A motivação é puramente religiosa, não histórica: a primeira geração cristã teve que assimilar o trauma da crucificação, o «escândalo da cruz» e conseguiu-o por meio da sua integração num plano divino anunciado já pelos profetas.
A narração da paixão é um bloco narrativo autónomo, que evoluiu por sua conta. Podem considerar-se nele as seguintes etapas, de acordo com o processo da formação das tradições:
a) Estrato 1: uma memória real e fiel dos factos tal como ocorreram. Os depositários desta memória eram os contemporâneos de Jesus, a sua família, os seus seguidores, os seus companheiros de armas… O conteúdo essencial era a detenção pelas tropas romanas, a condenação pelo prefeito, a crucificação, o enterro numa fossa comum e a dispersão do grupo na Galileia.
b) Estrato 2: uma primeira modificação da memória do sucedido para apresentar Jesus como um profeta pacífico e alheio à luta armada.
c) Estrato 3: uma segunda distorção dos factos promovida no seio da comunidade de origem helenista anterior a Paulo, radicada provavelmente na Antioquia, talvez em Damasco. Nesta comunidade forjou-se a crença na ressurreição de Jesus e no seu messianismo. A partir desta crença elaboraram-se os primeiros cartapácios de passagens bíblicas explicativas que se aplicaram a um rudimentar e primeiro esquema narrativo.
d) Estrato 4: elaboração de uma sequência narrativa literária em língua grega, habilmente ajustada ao contexto judeu, com a criação da lenda do juízo de Jesus perante o Sinédrio. O principal motivo era, agora, demonstrar que Jesus não foi um sedicioso contra o Império romano. Este é o documento que está na base da narração da paixão de Marcos, conhecida pelos demais evangelistas. Parece que Paulo não a conheceu ou que, de qualquer forma, a quis ignorar.
A Resistência contra o domínio Romano
Interessante é o levantamento do «Egípcio», na década de cinquenta, sob a procuradoria de Félix. Flávio Josefo oferece uma crónica da situação do país naqueles momentos. Homens mentirosos e enganadores, sob o pretexto de estarem inspirados por Deus, procuravam inovações e mudanças.
O caso mais notório foi o de outro profeta:
Apresentou-se no país um homem charlatão que ganhou fama de profeta. Reuniu umas trinta mil pessoas ludibriadas por ele e levou-as desde o deserto até ao Monte das Oliveiras, a partir de onde era possível penetrar à força em Jerusalém e, depois de se impor à guarnição romana, reinar sobre o povo como um tirano, para o que tomaria como guarda pessoal os que entrassem com ele. Porém, Félix adiantou-se ao seu ataque e foi ao seu encontro com as tropas romanas. (Flávio Josefo, Guerra 2, 261-263)
O texto resumido oferece, de forma condensada, o guião estratégico de uma revolta contra os romanos na Judeia: refúgio logístico no deserto, concentração no Monte das Oliveiras, assalto à guarnição romana.
Um contingente armado
Agora, cabe-nos investigar qual foi exactamente o delito de sedição do grupo de Jesus. Nas narrações dos Evangelhos aparecem alguns textos chave. Um deles é a referência à espada que Pedro utilizou para agredir um dos atacantes no Monte das Oliveiras. Examinaremos detalhadamente esta questão, pois é o fio pelo qual desenrolaremos o novelo.
A lenda de Lucas acerca da última ceia conclui com a seguinte passagem:
Depois acrescentou: «Quando vos enviei sem bolsa, nem alforge, nem sandálias, faltou-vos alguma coisa?». «Nada», responderam eles. E ele acrescentou: «Mas agora quem tem uma bolsa que a tome, assim como o alforge, e quem não tem espada, venda a capa e compre uma. Porque, digo-vo-lo eu, deve cumprir-se em mim esta escritura: ‘Foi contado entre os malfeitores’. Efectivamente, o que me diz respeito toca o seu termo». Disseram-lhe eles: «Senhor, aqui estão duas espadas». Mas ele respondeu-lhes: «Basta!» (Lucas 22,35-38)
Esta passagem ressalta que, na narração evangélica, as espadas aparecem já antes da menção do seu uso no Monte das Oliveiras.
O fortíssimo episódio do Monte das Oliveiras é referido nos quatro Evangelhos: Marcos 14, 26-52; Mateus 26, 30-56; Lucas 22, 39-53; João 18, 1-12.
Os três sinópticos dizem que Jesus e os seus discípulos saíram de noite em direcção ao Monte das Oliveiras. João limita-se a assinalar que era do outro lado da torrente Cédron, o que é correcto. Os historiadores confessionais deviam explicar como é que este grupo de homens conseguiu sair de noite de uma cidade amuralhada com as portas fechadas e vigiadas. Se o governador não mandava os seus soldados vigiar as portas é porque era um incompetente digno de escárnio.
Passemos ao episódio do uso das armas.
Lucas escreve: “Vendo aqueles que o cercavam o que ia suceder, perguntaram-lhe: Senhor ferimo-los à espada?” Lc. 22, 49).
Os quatro evangelhos relatam, de seguida o episódio da agressão.
“Então um dos que estavam presentes, tirando a espada, feriu o criado do sumo sacerdote e cortou-lhe uma orelha.” (Mc 14,47)
João diz que o espadachim era Pedro.
Crítica histórica
Esta “atestação múltipla” reflecte a tergiversação cristã dos acontecimentos, adoptando-os à crença no Jesus pacífico, não havendo espaço para as armas. E contudo elas aparecem.
Estamos pois em condições de aplicar o critério de dificuldade. Se aparecem armas e confrontos armados, é porque realmente os houve: ninguém na primeira geração cristã, teria inventado uns dados tão contrários às crenças professadas.
8 – O ensinamento de Jesus
Não consta historicamente que Jesus exercesse uma importante actividade como pregador. O seu ensinamento, se é que o houve, deve-se ter limitado a reproduzir a doutrina de João Baptista. A tradição posterior adjudicou-lhe uns «discursos» (logia) que, na maior parte, reflectem o processo de exaltação teológica da sua figura como profeta, Messias e Filho de Deus. Contudo, é possível que alguns logia remetam para elementos da sua pregação real, isto é, a doutrina de João Baptista.
9 – Discrepâncias com a família
A família de Jesus situava-se na órbita espiritual de João Baptista e discordou abertamente da opção armada adoptada por Jesus e pelos seus companheiros. Não havia discrepância alguma em aspectos doutrinais, de tal modo que depois da morte de Jesus a sua família encabeçou o movimento que Baptista tinha iniciado.
10 – Batalha, captura e morte
A estratégia do golpe armado do contingente de Jesus era a usual: concentração no Monte das Oliveiras e assalto ao Templo, como simples preâmbulo para a intervenção divina. Os conjurados eram um grupo numeroso, certamente mais de doze. Os romanos atacaram-nos e desbarataram-nos numa acção diurna. Jesus e mais alguns foram capturados, talvez por acaso. Condenados à morte, foram imediatamente crucificados e os seus corpos foram atirados para uma vala comum. O resto dos conjurados fugiu para a Galileia.
11 – Tiago, o irmão de Jesus
Entre a morte de Jesus e as primeiras informações acerca da primitiva comunidade cristã de Jerusalém há um total vazio histórico. Partindo dos dados conhecidos que concernem às situações anterior e posterior, podemos esboçar as seguintes circunstâncias. O projecto do grupo armado ficou completamente desbaratado. A família de Jesus, que se tinha oposto à violência, beneficiou da nova inclinação. Tiago foi a referência principal da nova corrente. A tudo isto, o espírito dos Macabeus continuou operante e lançou a semente do que ia ser um dos movimentos espirituais mais potentes da humanidade: Jesus tinha sido um mártir.
Tiago, o irmão de Jesus
Nos escritos primordiais cristãos aparecem seis pessoas com o nome de Tiago. Delas, o único que tem consistência histórica é Tiago, o irmão de Jesus. Este Tiago é objecto de referência em dois documentos de indiscutível autenticidade: a Carta de Paulo aos Gálatas e as Antiguidades Judias de Flávio Josefo.
Tiago aparece em dois Evangelhos primordiais na lista de irmãos de Jesus:
Não é ele o carpinteiro filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? (Marcos 6, 3)
Não é ele o carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós? (Mateus 13, 55-56)
Tiago na primeira comunidade de Jerusalém
Todas as fontes cristãs, tanto antigas como tardias, registam o lugar relevante ocupado por Tiago na primeira comunidade depois da morte de Jesus.
Dispomos do testemunho autêntico e crucial de Paulo:
“Depois, passados três anos, fui a Jerusalém para visitar Pedro e fiquei com ele quinze dias. Não vi mais nenhum dos Apóstolos a não ser Tiago, irmão do Senhor. (Gálatas l, 18-19) (…) e tendo reconhecido a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram considerados as colunas, estes deram-nos as mãos, a mim e a Barnabé, em sinal de comunhão, para que nos fôssemos aos gentios e eles aos circuncidados”. (Gaiatas 2, 9-10)
O livro dos Actos dos Apóstolos:
Pedro dirigiu-se a casa de Maria, mãe de João, por sobrenome Marcos. Eles abriram e, ao vê-lo, ficaram estupefactos. Fazendo-lhes sinal com a mão para se calarem contou-lhes como o Senhor o havia tirado da prisão e acrescentou: «Mandai dizer tudo isto a Tiago e aos irmãos». Depois retirou-se dali e foi para outro sítio. (Actos dos Apóstolos 12, 12 e 16-17)
Tiago é reconhecido como o chefe da comunidade cristã de Jerusalém desde o primeiro momento. O livro dos Actos dos Apóstolos assim o reconhece no chamado «concílio de Jerusalém»:
Toda a assembleia ficou em silêncio e se pôs a ouvir Barnabé e Paulo descreverem os milagres e prodígios que Deus realizara entre os pagãos por intermédio deles. Quando acabaram de falar, Tiago tomou a palavra e disse: «Irmãos, escutai-me. Simeão contou como Deus, ao princípio, Se dignou intervir para tirar de entre os pagãos um povo que fosse consagrado ao Seu nome.» (Actos dos Apóstolos 15, 12-14)
Por fim, num momento em que Pedro já não está em Jerusalém, o livro dos Actos dos Apóstolos insinua o lugar importante de Tiago na comunidade judia cristã: Quando chegámos a Jerusalém, os irmãos receberam-nos com alegria. No dia seguinte, Paulo foi connosco a casa de Tiago e todos os anciãos aí se reuniram. » (Actos dos Apóstolos 21, 17-21)
Os testemunhos cristãos:
“O irmão do Senhor, Tiago, recebeu a Igreja com os apóstolos”. (Hegesipo, citado por Eusébio, Historia eclesiástica 2, 23, 4-5)
A morte de Tiago
A morte de Tiago é um dos factos mais bem documentados da história do cristianismo primitivo. Relata-o uma fonte não cristã (Flávio Josefo) e várias fontes cristãs entre os séculos II e IV. Apenas Paulo goza de uma comparência histórica tão sólida como Tiago.
Flávio Josefo, historiador judaico-romano (37 a 100 depois de Cristo), relata:
O sumo sacerdote Anano, o jovem, convocou um Sinédrio de juízes e apresentou perante ele o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e mais alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a Lei e entregou-os para serem lapidados. Os cidadãos tidos como os mais moderados e mais escrupulosos cumpridores da Lei ficaram muito entristecidos por este facto e enviaram uma mensagem secreta ao Rei pedindo-lhe que ordenasse a Anano que se abstivesse de proceder deste modo. Efectivamente, não se tinha procedido correctamente neste primeiro assunto. Alguns inclusive foram ao encontro de Albino, que vinha de Alexandria, e recordaram-lhe que Anano não tinha competências para convocar o Sinédrio sem o consentimento do procurador. Convencido por estas informações, Albino escreveu iradamente da sua parte e depôs Anano do sumo-sacerdócio devido à sua acção. (Antiguidades 20, 197-2003)
12 – A comunidade de Jerusalém
O movimento no qual Jesus tinha participado prosseguiu, mas descartando por completo a luta armada. Passados alguns anos regressaram a Jerusalém num contexto de expectativa escatológica. Entre os que compareceram em Jerusalém encontravam-se a mãe e os irmãos de Jesus. Começou o processo de exaltação de Jesus e de João Baptista, tidos como mártires de significação macabeia. Jesus foi considerado o profeta cuja morte em martírio anunciava a chegada do fim dos tempos, a vinda do Messias. O grupo de fiéis de Jerusalém manteve-se sempre dentro da mais estrita ortodoxia judia. O dirigente da comunidade foi Tiago, o irmão de Jesus.
Um grupo de judeus helenísticos acreditou que o martírio do profeta Jesus marcava o início do tempo final; neste expectante período, Israel abria-se a todas as nações, eliminando as prescrições limitativas da Lei, em particular a circuncisão. Como consequência, os pagãos que desejavam agregar-se ao povo eleito não eram obrigados a circuncidar-se, nem a cumprir as prescrições rituais. Tanto os judeus em geral como os cristãos judeus, cujo chefe era Tiago, recusaram esta crença. Os helenistas foram perseguidos e fugiram para Damasco e para Antioquia, onde estabeleceram as bases do cristianismo pagão.
Paulo, depois de perseguir os cristãos helenistas, converteu-se à crença dos seus perseguidos e levou-a à recusa da Lei de Moisés. Por este motivo confrontou-se com os cristãos judeus de Jerusalém, em particular com Tiago. As duas correntes cristãs acabaram por se separar. Por causa da destruição de Jerusalém no ano 70, os cristãos judeus dispersaram-se pelas regiões de língua semítica do Próximo Oriente.
Epílogo – Perfil esquemático de Jesus.
Mais com lógica hipotético-deductiva e “exercendo uma suave pressão sobre os factos”, propõe-se o seguinte perfil como plausível.
A Galileia, sob o reinado de Herodes Antipas, vivia em paz e inclusive em prosperidade. Numa povoação cujo nome não conhecemos, mas que se encontrava numa comarca não helenizada, morava uma família composta pelo pai, José, pela mãe, Maria, cinco irmãos, Jesus, Tiago, Simão, Judas e Joseto, e algumas irmãs.
Quando surgiu no Vale Jordão a figura de João, Jesus distinguiu-se pela sua fidelidade ao asceta do deserto e juntou-se ao grupo dos seus discípulos, iniciando uma actividade de pregador e de baptizador. A certa altura a sua família congregou-se à volta de João Baptista, dando provas do vigor da sua vivência religiosa e apocalíptica.
A Galileia autónoma desempenhava o papel de santuário e refúgio para os movimentos de resistência contra a dominação romana da Judeia, sobretudo em Jerusalém.
Desaparecido João, dispersada a comunidade do Jordão, os activistas optaram por se refugiarem na segurança do deserto, onde instalaram as suas bases de recrutamento e treino. A partir do seu refúgio, os conjurados realizavam campanhas de consciencialização através dos povoados da Galileia, empenhando-se em dar às suas intervenções um carácter de religiosidade.
Jesus estava convencido de participar numa missão desejada por Deus. A sua família inquietou-se. Comungavam dos ideais político-religiosos do movimento surgido em volta de Baptista, mas recusavam absolutamente a luta armada. Neste contexto de esperança pacífica fortaleceu-se a figura de Tiago, em torno da qual se configurou a autêntica herança de João Baptista. Aproveitando uma incursão dos conjurados na comarca da sua residência, os seus tentaram convencer Jesus da inconsequência da sua tentativa. «Está fora de si», diziam. Mas Jesus não se deixou convencer e cortou relações com a sua família.
O projecto de insurreição foi-se perfilando no quadro de um levantamento em Jerusalém por ocasião da Páscoa. A estratégia era a tradicional nas revoltas centradas na Cidade Santa. Os amotinados, pouco mais que uma centena, estabeleceriam a sua base logística no deserto da Judeia, a pouca distância de Jerusalém. Ao entardecer, ocultando as suas espadas de dois gumes, ir-se-iam concentrando no Monte das Oliveiras. Quando se abrissem as portas da cidade entrariam e irromperiam no pátio do Templo, fechando os portões e fortificando-se ali.
Ao amanhecer de um dia de Abril, quando o contingente de insurrectos se predispunha a descer o Monte das Oliveiras, atravessar a torrente do Cédron e irromper pela cidade, os soldados treinados da legião auxiliar romana caíram sobre eles. A batalha foi curta, mas mortífera. Os legionários esfaquearam muitos e capturaram três, entre eles um dos que parecia encabeçar os galileus. Os restantes conjurados deixaram cair as armas e escaparam para o deserto, a partir de onde regressaram à Galileia desconcertados pelo abandono do seu Deus.
Os prisioneiros foram levados imediatamente ao pretório. Num sumaríssimo julgamento, sem necessidade de testemunhos, pois tinham sido encontrados com as armas na mão, Jesus e os dois insurrectos foram condenados a mors aggravata em suplício de cruz por delito de laesa maiestas populi romani. A sentença executou-se de imediato. O secretário do prefeito, ao redigir a sentença, que tinha de ser reduzida a escrito e de imediato remetida para Roma, solicitou informação acerca do nome de Jesus. Uma vez mortos, os cadáveres dos supliciados foram atirados para uma vala comum em cal viva.
Os fugitivos chegaram à Galileia e informaram a família de Jesus da tragédia. A consternação foi profunda entre os seus parentes. Esqueceram-se por completo das divergências que os tinham separado e, já que não se podia honrá-lo como macabeu vitorioso, começou-se a honrá-lo como um macabeu mártir.
Passados uns anos, quando Jerusalém já quase se tinha esquecido do incidente, a família de Jesus, liderada por Tiago e apoiada por alguns dos antigos companheiros dos mártires, sentiram de novo o apelo apocalíptico e resolveram congregar-se em Jerusalém para esperar, já sem provocações armadas, pela vinda do Messias salvador, que era evidente que já não podia demorar. O movimento de João Baptista empreendia um novo rumo, desta vez sob a tranquila e prudente direcção de Tiago, o irmão de Jesus.
A mensagem de João, de Jesus e de Tiago, transplantada para o meio indo-europeu por obra e génio de Paulo, medrou e desenvolveu-se até aos dias de hoje.

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